4 de maio de 2014

Dia da Mãe

O meu filho tem 4 anos. Se tivesse sido mãe quando o planeei teria 9. 
A vida raramente é como a planeamos, troca-nos constantemente as voltas, e obriga-nos a reagir e a estar atentos.
Foram quase 5 anos a tentar engravidar, durante os quais o dia da mãe foi ganhando um significado diferente. Se sempre o tinha passado como filha, desejava cada vez mais vivê-lo como mãe.
No primeiro ano, tudo foi encarado de animo leve e muita descontracção. Tudo tem o seu tempo e eu não tinha assim tanta pressa. A natureza havia de seguir o seu curso, afinal o organismo havia de precisar de desintoxicar, depois de vários anos a tomar a pílula.
Passado o primeiro ano, as dúvidas começaram a aparecer, insinuando-se nos momentos de descontracção, quando menos esperava. Falei com amigas, ouvi vários conselhos, comecei a medir a temperatura, a contar dias, a tentar prever o período fértil. Começou a fase do sexo com dia e hora marcada e posições sugeridas e “infaliveis”. Se no inicio ainda tinha alguma graça, rapidamente, mês após mês a graça desapareceu.
Assumi finalmente que algo de errado se passava. Marquei consulta com a ginecologista, fizemos vários exames, completamente inconclusivos.
Ela, não encontrando razão aparente para o insucesso, lá acabou por dizer que muitas vezes era mesmo assim, a medicina não explica tudo e ainda há um mundo por descobrir. Fiquei banzada! Então em pleno século XXI, não conseguiam saber o que estava mal?
Sugeriu estimulação hormonal com acompanhamento da maturação dos óvulos, e foi o que fizemos. Começou a fase das injecções (só de me lembrar fico arrepiada!).
Tudo decorreu na maior normalidade, óvulos lindos, tamanho espectacular, mais sexo com dia e hora marcada...mas na hora H... Nada. A fertilização não acontecia.
A repetição. As ecografias, a esperança. A espera, as neuras. Um atraso, a esperança... A decepção. Ao fim de vários meses de tentativas semelhantes, a médica aconselha descanso. “Deixem de pensar nisso por uns tempos e depois revemos possibilidades.”
Deixar de pensar... Como se fosse possível! O tempo passava, e eu já só via grávidas e bebés á minha volta! Parecia que o mundo era feito de grávidas e bebés e eu por aqui á espera de minha vez, a “não pensar nisso!”.
Neste intervalo, soube de alguém com ovários poliquísticos, que tinha conseguido engravidar após algumas sessões de acupunctura com determinado médico. Boa! (pensei eu) , comigo ainda vai ser mais rápido pois se os meus ovários até funcionam bem... Pânico de agulhas, mas queria lá saber, estava disposta a tudo.
Foram 11 sessões intensas de electro-acunpuntura, que é como quem diz, agulhas ligadas á corrente... Sempre um horror, a sair de lá uma pilha de nervos, as lágrimas a escorrer pela cara abaixo, e a insistir. Na décima primeira sessão o medico convenceu-me que aquilo estava a fazer mais mal que bem. Naquele estado de nervos não valia a pena continuar. Desisti.
Queria tanto que já não estava a ser razoável.
Parafraseando o livro da Sónia, a mãe de todas as culpas atacou em força. Mas porque raio esperei tanto tempo para começar a tentar? Onde andava com  a cabeça quando decidi tomar a pílula mesmo quando não tinha namorados, mas porque... mas porque...
Parei uns dias para pensar, ponderei alternativas. Voltei á medica.
Ela, perante o meu cenário aconselha inseminação in vitro. Encaminhou-me para uma clínica de fertilidade. Acedi.
Não foi fácil. Pilhas de hormonas injectadas todas as noites, análises ao sangue dia sim dia não, ecografias sem fim. Extracção de óvulos... a espera. A esperança. O fracasso.
Repetição. Mais dor. Finalmente um positivo. Estava grávida! Foi a loucura.  O histerismo. Ver num grãozinho de arroz um batimento cardíaco parece um milagre. É um milagre.
Mas ainda não era para mim. O aborto expontâneo mesmo só tendo 3 semanas foi um abalo tremendo. Comecei a duvidar de tudo, principalmente de mim. Conseguiria passar por tudo outra vez? O medico aconselhou um mês de descanso para o corpo e a mente.
Durante esse tempo, ocorreu-me que o dia da mãe estava de novo a chegar, (com a publicidade em todo o lado era impossível passar despercebido), e mais uma vez o dia não seria para mim como mãe mas como filha.
Voltámos á clínica em Maio. Os dias passaram, entre agulhas e exames vários.
Feita a Fertilização in vitro, no meu caso através de ICSI (microinjecção intracitoplasmática), chegou o dia da implantação, ainda em Maio dia 31.
Mais uma vez, exames, espera. Nervos á flor da pele, hormonas a mil. Finalmente o telefonema. Estava grávida. Devia ter saltado. Gritado de felicidade... Mas na verdade tinha medo. Medo de que não fosse real, que fosse uma miragem, um sonho. Medo de acordar.
Os primeiros três meses, foram de incredulidade. Finalmente ás 12 semanas, quando voltei á minha médica comecei a permitir a mim própria acreditar que era real. Que podia ficar Feliz. Ainda adiei “os foguetes” mais umas semanas, devido á amniocentese, pois se há exame que nos deixa aflitas depois de finalmente engravidar é este. O risco e a espera.
O resultado foi bom e finalmente tudo estava bem. Normal, tudo estava normal. Acho que nunca gostei tanto dessa palavra...
A felicidade era plena. Passei a gravidez num verdadeiro estado de graça. Tão feliz, que me sentia culpada dessa felicidade.
Claro que tive enjoos, e coisas várias, típicas da gravidez, mas tudo me parecia pequenino, insignificante. Todos os problemas á minha volta pareciam pormenores sem grande importância. Nunca me tinha sentido assim e nunca mais voltei a sentir. Como que a flutuar, nas nuvens. Quase inebriada.
Fiquei grávida ainda em Maio, tornando este mês ainda mais especial. Mês do aniversário da minha mãe, do meu aniversário, do aniversário da minha gravidez e o mês de todas as Mães (Eu incluída!!!!)


Depois de tudo, sinto que devia ter uma frase espectacular e inspiradora. Não tenho.
Sei que fui abençoada, pois nem todas as histórias de infertilidade levam a uma gravidez e aprendi que somos infinitamente mais fortes do que imaginamos. 





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