10 de junho de 2014

10 de Junho é Saudade

10 de Junho Dia de Portugal. 
Podia escrever sobre isto, mas seria mais do mesmo e não seria do coração. 

10 de Junho de 1910, data de nascimento de quem recordo sempre neste dia, com muita saudade.
A minha avó Adília.

Imaginem uma velhinha de cabelo branco e roupa toda preta como tantas, mas com uns olhos azuis cor do céu, pequenina e franzina, mas irrequieta nos seus 45 kg de peso.
O cabelo sempre entrançado, e a trança enrolada no fundo da nuca presa com ganchos, numa arte que já só as avós dominam. O cabelo à volta da sua cabeça parecia uma moldura de nevoeiro a brilhar ao sol em contra luz. O olhar curioso, doce e meigo. Sempre de sorriso aberto, pronta para uma boa conversa, por vezes difícil devido à surdez. Já ficaram com uma ideia?

A minha avó era uma mulher optimista por natureza. Uma natureza persistente, lutadora e benevolente com todos, apesar de a vida não lhe ter sido nada fácil.
Ficou viúva muito cedo, grávida do seu quinto filho, mas nunca a ouvi falar com tristeza desses tempos. Criou os filhos com muito trabalho e dedicação, apesar de todas as dificuldades, a vida não a amargou.
A minha avó é a única pessoa que conheci que só via o lado bom das pessoas. Fosse quem fosse, tinha sempre um argumento para as defender das más línguas, ou acusações proferidas na sua frente.

Vivia da sua minúscula reforma e do que plantava na sua horta, o equilíbrio financeiro foi sempre mantido por ser uma pessoa de uma frugalidade espantosa. Apesar disso, (ou talvez por isso mesmo), tinha sempre um mimo para os netos, um rebuçado, uma bolacha, uma torrada feita na brasa, um copo de café feito no pote à lareira (delicioso!), a maravilhosa fruta da sua horta...
Tenho para mim que nunca comi figos melhores que os da sua figueira ou melancias do seu quintal. Recordo também os morangos e as cerejas! sabiam a sol!  O mais incrível é constatar serem as minhas frutas preferidas... provavelmente porque me devolvem o sabor da infância com a minha avó, e todo aquele amor que ela distribuía juntamente com os miminhos.

Morámos com a minha avó até aos meus 7 anos, altura em que a nossa casa ficou pronta.
A casa dela continuou a ser o meu refugio, o meu porto seguro. Passava com ela tardes inteiras depois da escola. No inverno a vê-la fazer meias de lã junto à lareira para os filhos todos, no resto do ano a acompanhá-la nas suas voltas ou afazeres na horta.

Quando fui para a Faculdade, não foi fácil esta separação, e sempre que regressava a casa nas férias depois de largar a mala em casa, ela era a primeira pessoa a visitar. Recebia aquele abraço apertado, e aquecia a alma com o seu olhar doce que brilhava de comoção.
Foi a pessoa que mais me incentivou a seguir os meus sonhos, que eram muito maiores que a pequena aldeia onde vivi até aos 18 anos. Toda sua vida vibrou mais que todos à minha volta, com os meus sucessos escolares e pessoais, e apregoava-os a quem a quisesse ouvir.
Nos últimos anos eu e ela, sentíamos aquela ansiedade da despedida, conscientes que qualquer dia podia ser a última, pois com mais de 80 anos, a finitude da vida é algo que ensombra o nosso pensamento.
Vivemos a alegria da chegada e a ansiedade da partida até aos seus 91 anos.

O telefonema que recebi num dia chuvoso de Fevereiro foi infinitamente doloroso, o meu coração ficou gelado, chovia lá fora e choveu cá dentro. Apesar de não ser um choque, foi inexplicavelmente devastador. Tudo o que fiz nesses dias foi quase em piloto automático, entre rios de lágrimas, que ainda hoje caem quando o recordo. Sinto-lhe a falta. 
Penso nela e no tanto que me passou pelo exemplo. No muito que me inspirou a ser melhor, a ir mais longe. Ainda hoje sorrio com algumas das suas particularidades, e exclamo algumas das suas frases e expressões características do Nordeste Transmontano.
Dizem que sou a neta mais parecida com ela, não sabendo que é o melhor elogio que me podem fazer...

Nunca mais entrei na casa onde morou. Não consigo enfrentar aquele vazio.
Lamento que não tenha conhecido o meu filho, e mais ainda, que o meu filho não a tenha conhecido a ela.
Recordá-la ainda me enche de saudade, uma saudade que me encolhe o coração.
Percebi com a idade, que o passar do tempo ajuda a pôr muita coisa em perspectiva, a arrumar tudo nos sítios certos do nosso coração. Mas por mais que o tempo passe pela saudade, só a adoça, lima-lhe as arestas que nos rasgam por dentro, mas não a diminui.

Parabéns avó.



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