13 de julho de 2014

A minha Mãe e eu

Não entendo a minha mãe. 
Por mais que tente não consigo chegar lá. Somos muito diferentes. 
Naturalmente herdei pequenos detalhes que só nós percebemos, e a par disso, dou por mim a usar algumas das suas expressões características quando falo com o meu filho. Mas nas coisas que realmente marcam a personalidade de cada uma, estamos em pólos opostos. 
Gostaria de ser daquelas filhas que têm uma ligação de grande cumplicidade com a mãe, das que não conseguem deixar passar dois dias sem falar com ela, de tudo e de nada. Como tantas... Não sou, e falta-me isso. 

Durante a minha adolescência tínhamos desentendimentos frequentes. Só quando ficámos a 500 km de distância, iniciámos uma aceitação progressiva das particularidades de cada uma. A maturidade trouxe o respeito mútuo, mas a compreensão ainda não.
Não entendo a sua maneira de encarar a vida. Como se não esperasse nada dela.
Deixando correr dias iguais, sem sonhos nem ambições, a cumprir “serviços mínimos”, e por vezes nem isso. Se esse comportamento a fizesse feliz, se vivesse o dia a dia sem cuidados, descontraidamente, eu aceitaria sem questionar, mas a verdade é que não o faz.
Parte do tempo está num desalento que me mirra a alma. Fico com o coração apertado de saber que não consigo ajudar, de sentir que estou longe, e ela está lá, a passar por tudo quase sozinha.
Em alturas de extremo desânimo, não se cuida, não se mima, num desmazelo que dá dó.  Até que a saúde se ressente desse desleixo. Chega ao fundo, e nessa altura já só recupera com ajuda.

Quando regressa a uma normalidade “precária”, dá gosto ver, canta, brinca, passeia, visita as irmãs e as amigas, cuida das suas coisas, anima-se com os netos. Nestes períodos a comunicação flui melhor, é mais mãe, mais avó, mais mulher. 
Mas algum tempo depois, a espiral  instala-se e recomeça mais um ciclo descendente.
Nesta altura, quando começa a "descambar", isola-se, baixa os braços à primeira dificuldade, entrega-se à lassidão e a desculpas esfarrapadas. Desiste de tudo. De ser, de fazer, de ir.
Quando percebemos que está a desistir, damos-lhe um “abanão”, para ver se reage, falamos-lhe dos netos, das coisas boas e simples que pode fazer. Raramente funciona quando já está em maré vazia.

Eu e os meus irmãos, ainda não descobrimos como evitar ou reverter estes ciclos negativos cada vez mais frequentes, para a ensinar a fugir deles. Sabemos que em circunstâncias extremas, ela é capaz de grande força e coragem, já aconteceu. Mas usar dessa vontade, e essa coragem numa base diária parece ser demasiado. Há ali qualquer coisa que a impede de simplificar, de aproveitar os pequenos prazeres e de os cultivar. Algo que a vai afastando de si própria e da necessidade primária de ser feliz.

Não compreendo a minha mãe, mas ela sabe (as mães sabem sempre!) que gosto muito dela, o Amor basta-se, não precisa de compreensão.


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