19 de agosto de 2014

Amizade do deserto

Dizem que a amizade é como as flores, precisa de ser regada. Que é como quem diz, acarinhada. Precisa da nossa atenção.
Não discordo completamente. Tenho amigos assim.
Mas eu, pessoa algo distraída e por vezes absorvida em demasia nas minhas coisas (devia regar mais), tenho a grande sorte de ter dois ou três cactos no meu jardim de amigos.
Amigas que, podem passar meses, atrevo-me mesmo a dizer anos sem qualquer contacto ou notícia, basta um telefonema e parece que foi ontem a ultima conversa.
Foi assim hoje com a M.J. Como é sempre.

Conheci-a no Liceu.
Quando achava que já tinha a minha melhor amiga (de infância que adoro!), fiz a melhor descoberta do mundo: descobri que podemos ter mais que uma melhor amiga!
Éramos inseparáveis, tão diferentes e tão complementares. Descobrimos um mundo infinito juntas. Partilhámos a dor e a felicidade extrema do primeiro grande amor e da primeira desilusão. Chorámos e rimos juntas. Rimos muito mais do que chorámos. Partilhámos segredos, alguns avassaladores.
Inventámos vidas para nós e para os que nos rodeavam. Trocámos cartas de tantas páginas que já não cabiam nos envelopes.

O tempo passa. A vida acontece.
Já não somos aquelas meninas idealistas armadas em intelectuais, que debatiam:
"em ultima análise o altruísmo é a mais elevada forma do egoísmo, pois o ser humano só pratica o bem quando isso lhe traz uma enorme satisfação pessoal..." , só porque sim.
Também já não somos as meninas ingénuas que teciam teorias mirabolantes, com base num determinado olhar ou frase proferida pelo objecto de paixão do momento, e esmiuçavam todos os significados possíveis, em frases que começavam por :
"mas achas que..."

Não somos as meninas idealistas e ingénuas de há 20 anos atrás, mas elas continuam cá dentro, e quando falamos ao telefone, ou nos encontramos, saltam cá para fora, cobrem-nos como uma segunda pele, misturando-se com as mulheres que somos hoje. O resultado é simplesmente avassalador!
A sensação de leveza, a descontracção, a confiança inabalável, aquela centelha de loucura e irreverência...
Não sei se é da saudade do que fomos, ou da ligação única que criámos, mas tenho a certeza que estes momentos tão perfeitos, que nos devolvem uma parte tão doce de nós, são uma partilha quase espiritual.

Na loucura conjunta, a conversa geralmente acaba ás gargalhadas, com a visão mil vezes projectada de nós duas, com 90 anos, num lar de velhotes a catrapiscar os enfermeiros jeitosos que por lá se encontrem e a sarrazinar a cabeça aos restantes!
Pois este foi o nosso pacto de amizade há 20 anos atrás...

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