29 de setembro de 2014

Os amigos e o Facebook

Por vezes sinto mesmo muito, a falta de algumas pessoas. De as ter por perto. E quando digo pessoas, é uma maneira de não particularizar e dizer só amigos. Que é uma palavra boa mas que não me chega. Prefiro dizer pessoas que gosto muito, e que não vejo tanto como gostaria. Cada vez mais, vou sabendo delas pelo Facebook. O que fazem, onde vão, o que gostam. Quer queiramos quer não, parece ser normal ficar-se satisfeito só com isto. Mas eu não fico.

Entendo que é um meio de estar a par, ir acompanhando a vida de cada um, mas não é de todo a melhor maneira de nos relacionarmos com quem nos é mais querido. Falta o como, o porquê, o calor, a proximidade, o sentir.
Não se reconhece o sentimento no Facebook, não é possível entender aquele timbre dissonante na voz, ou a variante de um olhar que nos fala directamente à alma. Não se abraça, não se ouvem as gargalhadas. Não se limpam as lágrimas.

Ao fim de algum tempo percebemos que estar "na rede" é pouco mais que uma colecção de instantes captados por telemóvel, ou de frases copiadas que viajam massivamente entre likes, que supostamente dizem tudo sem nada dizer.

Sei que o nosso estilo de vida é cada vez mais desenfreado, todos sentimos a falta de tempo. A maioria das nossas decisões são tomadas após uma qualquer busca no mundo virtual, contribuindo para o resultado, um amontoado de likes que fomos distribuindo por essa rede fora ( contra mim falo, é raro o dia que não uso o senhor google).
Mas no meio de tudo isso, não podemos perder de vista o que é realmente importante para nos manter mentalmente sãos e emocionalmente funcionais.

Não há rede melhor que a rede de afectos, dos reais, que são cimentados por conversas cúmplices à volta de uma refeição cozinhada com dedicação e carinho, um serão que se prolonga sem hora de fim, um copo numa esplanada, ou da partilha de uma qualquer experiência cultural de interesse mutuo.
É a troca a viva voz de experiências pessoais, que nos engrandece, que nos acrescenta, seja da viagem das ultimas férias, do restaurante que nos deslumbrou, ou de qualquer outra experiência que sentimos vontade de partilhar, tenha sido ela agradável ou não. Partilhar somente. Sem nenhum objectivo para além de darmos mais um bocadinho de nós, de confiar.

Também eu aderi ao Facebook. (devo ter sido a ultima do circulo de amigos), uso com parcimónia. Cedi à pressão, "quem não está ligado está fora". E era quase verdade, por vezes sentia-me a leste do paraíso. Fui entendendo que há coisas que já não são partilhadas num telefonema, ou numa conversa banal. é suposto já sabermos, pois está no face!

Penso que se nota não ser eu a maior fã. Em minha defesa tenho alguns motivos: incomoda-me a invasão do meu espaço. Publicidade a toda a hora. Sugestões de temas que não me dizem nada. Pessoas que não conheço a pedir-me amizade...
Mas reconheço-lhe a utilidade e o mérito, encontrei pessoas que tinha perdido de vista, vou sabendo noticias de familiares que vivem do outro lado do Atlântico, sei que posso divulgar rapidamente algo que poderá ser de interesse comum, e há de certeza mais pontos positivos a descobrir...

O importante, na minha opinião, é não perder de vista que se trata de mais um meio, um complemento, mas não substitui a prática física e emocional da amizade. Não passa de um pálido reflexo da verdadeira troca de experiências.

Não se ofendam se não espreito o facebook todos os dias... e se as minhas entradas são escassas. Há outras coisas que gosto mais de fazer.


27 de setembro de 2014

Serenar

Ás vezes é quanto basta.
Ficar por casa sozinha com o filhote, dar mimo e receber os melhores beijos e abraços.
Ver a chuva lá fora que lava tudo.
Ouvir os trovões, ver os relâmpagos rasgar o céu, e explicar a trovoada a uma criança de 4 anos.
Organizar o espaço e a mente.
Procurar o arco-íris, mas encontrar um sol cheio de promessas boas.
Fazer um bolo, beber um chá, conversar sem pressa.
Ver o dia passar e aproveita-lo devagar, largando a ansiedade de fazer coisas, ir a sítios, ver pessoas.
Saber que tudo tem o seu tempo.
Afastar por momentos, uma grande preocupação, e acreditar no melhor.
Aproveitar a pausa para respirar devagar. Recuperar forças.


26 de setembro de 2014

Escrever

Por vezes pergunto-me para quem escrevo.
Só contei a meia dúzia de pessoas. Pessoas que me são muito próximas, e/ou de mente aberta.
Não por ter vergonha do que escrevo, mas por saber que é uma janela, que uma vez aberta não poderei fechar.
Neste intervalo, entre decidir se quero ou não abrir esta janela, vou continuando a escrever, porque acima de tudo escrevo para mim, por mim. Mesmo quando tenho sono e me obrigo a continuar. Mesmo quando o que escrevo só para mim faz sentido. Mesmo quando apago tudo a seguir.
Porque já abdiquei de tanto para não incomodar, por comodismo, por insegurança...

Nesta redescoberta pelo gosto da escrita vou pondo cá para fora emoções que precisam de apanhar ar, de serem vistas à luz do dia. E é revelador reler e perceber melhor os meus motivos. conhecer-me, aceitar-me. Claro que ainda me policio muito. Tenho múltiplos rascunhos que nunca coloquei no blogue. Mas o acto de os escrever foi muitas vezes terapêutico e isso é o que escrever tem de melhor. Aproxima-me de mim.
Fico frente a frente com os meus desejos, os meus medos e os fracassos. No que toca ás coisas boas, é uma maneira de gravar a quente, a lembrança da felicidade sentida, para mais tarde a revisitar e me servir de sol em dias mais nublados.
Desisti de muita coisa, mas não me parece que vá desistir de escrever.
De vez em quando lá vou aprendendo uma ou outra lição que a vida me dá.

24 de setembro de 2014

Desafio

A doce Joana lançou-me este desafio, que eu aceitei com muito prazer!


1. O que sai sempre contigo de casa?
Para além da mala com o básico, Óculos de Sol.

2. Qual o teu animal preferido?
Tenho dois gatos inseparáveis, o Trico e a Syrah.




3. Qual é o teu sapato preferido?
Umas sandálias mostarda rasas da Fly, que para além de serem giras são super confortáveis. O ideal para quem passa muito tempo a correr atrás de um miúdo de 4 anos!

4. Produto de maquilhagem indispensável?
Uso poucas vezes, mas o mínimo será lápis e sombras.

5. Qual é o teu maior sonho?
Já plantei uma árvore, tenho um filho... Devo dizer mais?

6. Qual é o teu maior defeito?
Não sei se é o maior, mas é certamente o que me traz mais dissabores : Procrastinar.

7. O que te irrita nas pessoas?
A intolerância, a tacanhez, a maldade.

8. Qual é a tua comida preferida?
Adoro comer! Gosto de tanta coisa... Mas se for obrigada a escolher, digo comida italiana. Não vivo sem pasta em todas as suas variantes.

9. Doce ou salgado?
Depende dos dias. Mas geralmente salgado. 

10. O que te deixa feliz?
Mais que tudo no mundo, o meu filho. 




11. Escolhe 5 blogs para fazer este TAG
A Marta
A Carla
A Ana
A Rafa
A Diana

Obrigado Joana, por te lembrares! 

22 de setembro de 2014

Eu quero

As crianças vivem para testar limites. Os deles os nossos e os do mundo que os rodeia. Sei disso, faz parte da programação de base, é saudável. Cabe-nos a nós mostrar-lhe onde ficam alguns desses limites.
No caso do meu filho, com apenas 4 anos, "eu quero..." é o principio de grande parte das suas frases... não tem nada de mal, pois deixa-nos completamente esclarecidos acerca do que pretende, mas quando se aplica a brinquedos e a seguir vem a birra... a conversa pode azedar...

Eu cresci no campo, passei a minha infância toda a brincar na rua, sempre que o tempo o permitia. Acompanhada pelos meus irmãos e amigos, a natureza era o nosso mundo de aventuras.
Quando se trata de brincar, a convivência com outras crianças e o ar livre, são a melhor que lhe podemos proporcionar, não há brinquedo que substitua isso.

Sei que os brinquedos fazem parte do crescimento, também são importantes, na medida que os ajuda nos seus jogos de faz de conta, na construção física do seu imaginário.
Também os desejei, também os tive, apesar de ter sido a uma escala completamente diferente.
Na minha opinião, nunca os devem receber só porque os pediram. De mão beijada.
Devem ser adequados, com conta peso e medida.
Quanto mais têm, mais querem, menos valor lhes dão.

Tal como nós são assediados pela publicidade, brinquedos novos aparecem entre cada episódio de desenhos animados a que assistem. Nos hipermercados há todo um mundo associado ás suas séries preferidas que os chama. E eles vão. E pedem. E se detectam alguma fraqueza está o caldo entornado...

Desde cedo tento transmitir ao meu filho que não pode ter tudo, há escolhas a fazer e algumas opções não estão disponíveis. Nisto sou clara e tenho sido bem sucedida, vai ao corredor dos brinquedos, olha para eles, namora-os, mostra-me os seus preferidos, mas aceita pacificamente que não são para levar.
De vez em quando, após algum tempo de namoro, se entendo que é razoável, compro um dos que andou a namorar, mas nunca quando o pede. Só quando ele não está por perto, nem está à espera.
Também eu adoro ver a cara dele quando recebe o brinquedo tão desejado! Das melhores coisas do mundo (do meu mundo), é ver-lhe a felicidade estampada no rosto.
Mas a verdade, é que apesar de tudo isto, ele tem brinquedos que quase não usou, que foram moda passageira, que são demais...

Receio que em breve, outro tipo de pressão vá surgir. A dos colegas. Assisto entre miúdos mais velhos que alguns brinquedos são moeda de troca. Cartão dourado para pertencer ao grupo.
Confesso que ainda não sei como vou gerir essa situação.
Quando essa dia chegar logo vejo...



21 de setembro de 2014

Urban Trail de Lisboa

E assim foi o meu Urban Trail de Lisboa.
Muita animação na partida.  Musica, dança, boa disposição.
O calor de uma noite de Setembro muito para além do calor humano.
Alfama fadista, gaiteira. Embriagada no seu fado. Em pleno festival Alfama-te, "um palco em cada esquina".
Ruas estreitas, algumas quase privadas, quase o quintal dos moradores, por onde passámos como que a tocar a sua intimidade.
Escadas (muitas escadas) a subir e a descer, moradores à janela a incentivar, turistas curiosos.
Grupos que se juntam e se perdem num mar de gente.
A vista deslumbrante do castelo sobre a cidade e o rio. Sempre  Lisboa e o Tejo, sempre o par, contraponto e continuação.
















No final da noite a tradicional bifana, numa esplanada ao lado da estação de comboios mais bonita do mundo, o nosso Rossio. Como acompanhamento, uma conversa boa e nostálgica, a reviver a Lisboa de outros tempos, mais simples, mais romântica, à luz da distancia e através de recordações gravadas na descontracção dos nossos vinte anos.

Mais que uma caminhada entre amigos, uma viagem ao passado através de uma pausa no presente, na tentativa (vã) de contemplar o futuro.


19 de setembro de 2014

Primeiro por ti

Face a uma grande tragédia, dizer a alguém que tem que ser forte pelos outros parece-me antinatural.
Cada um que tenha que ser forte, que o seja primeiro por si. Também para outros, mas por si.
Faço a analogia com a mascara de oxigénio no avião, em caso de emergência.
Primeiro colocamos a dita em nós, só assim poderemos ajudar quem está do nosso lado.
Pode parecer egoísmo, mas a auto-preservação faz parte das leis primordiais da natureza.
Além disso, quando só o fazemos pelos outros, mais tarde pode surgir o ressentimento, e a tentação de cobrança.
Se precisas de ser forte por alguém, sê forte primeiro para ti, por ti. Só assim essa força terá base, substancia e alimento para passar a outros.
Que ninguém se convença que a fraqueza é uma falha, (tal como as lágrimas), é simplesmente um sinal da nossa humanidade. Temos direito a ela. Precisamos dela, (como de lágrimas em determinados momentos).
A maturidade vai-nos ensinando a geri-la, mas ela está lá sempre, e momentos de fraqueza surgem, por vezes quando menos esperamos, como medida da nossa sensibilidade.


18 de setembro de 2014

Desistir não é opção

O que fazer quando ...

Sabemos que uma amiga do coração precisa de nós, e estamos longe.
As palavras ao telefone não chegam.
Precisamos de uma explicação e não a encontramos.
Sentimos o desespero e não o conseguimos mitigar.
A dor maior atinge uma das pessoas mais doces e altruístas que conhecemos, e é tão injusto!
Suspeitamos no nosso coração, que podemos não encontrar a resposta a determinadas perguntas...






15 de setembro de 2014

Lumina

Domingo depois do jantar, completamente estafada, a ansiar pela minha cama...
Era assim que me sentia enquanto percorria Cascais para cumprir a promessa feita ao meu filho.
Ele queria ver o Lumina...
Carreguei casacos, camisolas, impermeáveis ... numa noite absolutamente perfeita para passear de sandálias, calções e manga curta na baía de Cascais.

Ele adorou cada surpresa cheia de luz.
Eu gostei, mas não consegui aproveitar devidamente, tal era o meu desconforto.
A musica foi o que mais apreciei. Cada peça escolhida combinava na perfeição com o cenário correspondente. Conseguia transportar-me pontualmente para fora de todo o cansaço que levei comigo. Uma espécie de bálsamo.
Custou-me mais esta pequena volta incompleta à velocidade de criança, que a caminhada matinal.
O melhor de tudo (mesmo tudo), foi ver o deslumbramento espelhado nos olhos curiosos da minha criatura pequena. Só isso vale qualquer estafa.








14 de setembro de 2014

Corrida do Tejo

Corrida do Tejo ... ou caminhada, vá.

Gosto de planear, e de seguir esse plano prévio. Os planos dão-me segurança e ajudam-me a sentir mais confortável. Mas ultimamente, imprevistos são o que mais me acontece, por acaso (ou não) esses imprevistos acabam por me dar perspectivas novas sobre situações, sítios e pessoas. Coisas que começam "mal" e acabam por correr bem!
Hoje foi mais um exemplo disso.

Preparei tudo de véspera, a roupa, a máquina fotográfica, a mochila com tudo o que poderia precisar.
Cheguei cedo à estação, dava tempo de sobra para chegar a Algés a horas. Entrei, e o comboio já vinha cheio. Cabe sempre mais um. Quando chegámos a Paço de Arcos já parecia-mos sardinhas em lata. Mas não faz mal. O espírito estava em alta. As pessoas estavam em pequenos grupos bem dispostas, e com uma energia muito positiva. Saímos de forma ordeira na estação de Algés, e seguimos em direcção à zona da partida.

Momento do baque.
Tiro a máquina fotográfica da mochila, faço o enquadramento para registar a multidão de gente à minha frente, e quando primo o botão... Não tinha cartão na máquina. Ficou no computador, pois tinha descarregado fotos na noite anterior.
Não me esqueci de carregar a bateria, mas o cartão... ficou em casa.
Nos primeiros minutos fiquei a recriminar-me pelo erro de principiante. De facto as fotografias na marginal, sem carros, de manhã, em sítios que só desta forma poderia fotografar, foram o motivo que me levaram a inscrever na corrida sozinha. Claro que o passeio também me animou, mas foi a possibilidade de fotografias únicas que me fez sair da cama cedo num domingo de manhã.
Parei de me insultar mentalmente e decidi aproveitar. Aproveitar mesmo. O ambiente, a paisagem, a caminhada. Sem fotografias e sem companhia para conversar, poderia pela primeira vez saber a minha média real de caminhada em terreno sem obstáculos.

Deu-se a partida. Inicialmente foi a confusão geral, quem corre, a tentar passar por quem caminha. Quem caminha a tentar não ser um estorvo. Lá segui calmamente na minha passada possível.
Foi muito giro observar as pessoas a correr á minha frente. Nunca tinha visto (reparado), em tantas maneiras diferentes de correr! Algumas pessoas correm de forma tão engraçada que várias vezes me ri sozinha. Como será que eu corro? com elegância? aos saltinhos? A arrastar os pés? desengonçada? como um robot?... Havia de tudo.
A foz do rio estava espectacular, a agua prateada brilhava e o céu com algumas nuvens, trazia uma luz matinal cristalina, num horizonte limpo pela ultimo aguaceiro.
Reparei pela primeira vez no quase silencio que nos envolvia, só quebrado pelo barulho dos múltiplos pares de  ténis a roçar o asfalto, numa cadencia que me embalava.
Após o primeiro quilometro, as pessoas que corriam foram-se distanciando, fiquei no meio dos grupos do costume, avós, netos, casais jovens com carrinhos de bebé, grupos de mulheres tagarelas (onde eu costumo estar), e casais enamorados.
Desta vez, seguia só. Pude andar ao meu ritmo, ao meu verdadeiro ritmo. Fui avançando gradualmente até que aconteceu uma coisa gira, comecei a passar por pessoas que já tinham passado por mim a correr. Eu caminhava e eles corriam... E passei por varias dessas pessoas mais que uma vez. Comecei a reconhecer alguns... que ultrapassei muitas vezes. Estranho fenómeno...
Ao quilómetro 4 havia água ... e milhares de garrafas vazias no chão.
Entendo que quem corre para ganhar, não se quer preocupar em por a garrafa no lixo, mas perdem assim tanto tempo com isso? Havia muitos caixotes ao longo do percurso.
Algo que me impressionou ainda mais, no meio do mar de garrafas vazias foi a visão de três senhoras já com idade para serem avós, a apanhar cuidadosamente todas as tampinhas para um saco que carregavam. Entendi o motivo e fiquei a pensar nisso. Há neste mundo dois tipos de pessoas, os que passam por ele como uma praga de gafanhotos e os outros, os que guardam as tampinhas para reciclar.
Não quero ser um gafanhoto. Carreguei a minha garrafa até ao fim da prova.

Fiz ao longo da prova vários enquadramentos mentais de imagens únicas, que nunca vou poder rever, pois sei que vão ficar perdidas no fundo do cérebro, algumas recordarei por algum tempo mas há uma que ficou, pela sua singularidade... ou por outra coisa qualquer.
Praia vazia, o mar, o céu, a areia dourada. O banheiro de calções cor de laranja, que passa com um troco de madeira ao ombro, daqueles troncos que por vezes vêm dar à praia. Parecia... Deixo à imaginação de cada um. Posso adiantar que tinha figura de atleta, músculos definidos, bronze ligeiro, e como diria a minha avó, bem apessoado. Não era ele por si só que fazia uma fotografia bonita, era todo o conjunto, a natureza, a luz, a solidão, o momento.

Mais uma cena caricata que recordo: a senhora das palmas solitárias. Só ela, a bater palmas, já a ouvia antes de a ver, passei por ela, e depois da curva ainda conseguia escutar o som das suas palmas, Só suas. O que será que leva uma pessoa a ir para a beira da estrada, sozinha a bater palmas a pessoas que desconhece?
Ao quilómetro 9, quando deveria estar já a ficar cansada, aconteceu o oposto, não sei se foi da musica, ou do facto de saber que estava quase no fim, mas apeteceu-me correr. A mim, que nem para apanhar o autocarro me dava a esse trabalho. Senti uma energia nova, diferente, alegre. Dei dois ou três saltos para descarregar, mas juro que me apeteceu correr. Pus a ideia de lado, pois mesmo que gostasse de tal actividade a bexiga cheia não mo permitiria. Sorri do absurdo da ideia, e continuei no meu ritmo.
A 500 metros do fim passei por um colega de trabalho que seguia com o filho, disse olá e continuei. Não tinham passado mais de 15 segundos, passam por mim os dois a correr. Continuei, passei por eles uns segundos depois, e eles repetiram de novo o sprint. Queriam chegar à meta antes de mim... Ri-me mais uma vez. O orgulho masculino é tramado...

Cheguei á meta. 1 hora e 39 minutos no cronometro oficial. Nada mal, tinha estimado 2 horas.
Segui caminho pelo passeio marítimo, na direcção contrária, de novo até à estação de Santo Amaro onde estava o carro. Na marina parei para ir á casa de banho, pois já não aguentava até casa, (o meu obrigado ao Bernardo do B'Entrevinhos pela simpática atenção).

Não tenho fotografias para guardar, só este relato escrito a quente, antes que as sensações e a euforia desapareçam. Não segui o plano. Mas por isso mesmo, vivi esta caminhada de uma maneira muito diferente do habitual. E foi bom. Atrevo-me a dizer que foi muito bom, se calhar até melhor que o planeado.


O meu gato a interferir nas únicas fotos da "corrida" que consegui tirar.










13 de setembro de 2014

Feira Setecentista

Apesar do tempo farrusco, decidimos visitar a Feira Setecentista no largo do Palácio de Queluz.
Pensei que seria uma boa oportunidade de visitar os jardins do palácio, ver as pessoas trajadas a rigor, ouvir musica da época, provar e trazer para casa os doces e salgados que sempre me cativam em feiras. Não foi bem só isso que aconteceu...

A fonte do mergulho



Mal chegámos, o meu filhote correu para uma pequena fonte que por lá se encontrava e decidiu percorrer o muro como tantas vezes faz, eu atrás dele nem tive tempo de acabar a frase "tem cuidado que ainda cais lá... para dentro".
Caiu. ficou todo encharcado. Saiu de lá a choramingar e a dizer "fiz asneira...".
A figura dele ao sair da fonte ... indescritível!
Eu mal conseguia disfarçar o riso, enquanto lhe dava um abraço e lhe limpava as lágrimas."tens que ouvir a mãe... foi um acidente". A solução que arranjei para não voltar logo para casa foi tirar-lhe a roupa toda, torcer as meias, limpar os ténis, e vestir-lhe (só) o meu casaco de malha. Chegava-lhe quase aos tornozelos. Parecia um pequeno mendigo... ou um figurante da feira.
Por sorte não estava o tempo frio, apesar das nuvens e da ameaça de chuva .








Ele não ficou muito incomodado com a situação a não ser no momento em que a amiga M. foi andar de pónei. Também queria. Eu, apesar de achar que a imagem de uma criança de rabo ao léu em cima de um pónei até podia ter piada e combinar com o espírito da a época representada, tive o bom senso de o convencer que não podia ser. Inventei que só os meninos que tinham cuecas vestidas é que podiam andar de pónei. Ficou triste, mas aceitou a ideia.
Passeámos, provámos queijos maravilhosos de Mirandela (que trouxe para casa), ginjinha de Óbidos e outros licores, vinho quente com especiarias (divinal), biscoitos, filhós feitas no momento, frutas, porco no espeto... Mas abreviámos a visita.





Mesmo assim, voltámos para casa com as mãos cheias de saquinhos de coisas boas. O costume.

          



11 de setembro de 2014

Super qualquer coisa

Detesto discussões. Acho que já o tinha dito.
Se do outro lado a pessoa for razoável e o tema for importante, defendo o meu ponto de vista, caso contrário evito o confronto. 
Na escrita, consigo organizar as ideias e ser coerente, mas no discurso verbal em ambiente hostil, faltam-me as palavras, é uma guerra perdida. Mesmo quando não tenho dúvidas, e tudo está claro, parece que todos os argumentos desaparecem e fico a boiar no vazio.
Acontece quando me deparo com pessoas agressivas, pessoas que adoram discutir, principalmente se tiverem audiência. Pessoas desonestas, que deturpam palavras, que dizem que não disseram, ou que os outros é que entenderam mal. Pessoas que não escrevem, mas dizem, pessoas que nunca assumem os erros, nem aceitam que podem estar enganadas.
O grito, a fúria, o vociferar insolente, aquele ar de gozo e de superioridade de quem começa uma batalha para poder espezinhar alguém, desorienta-me, emudece-me. Aprendi a reconhecer aquele olhar de quem "quer sangue", a não morder o isco.

De vez em quando, apesar de saber que nestas circunstâncias mais vale ficar sossegada no meu canto, fico de mal comigo. 
Porque não defendi algo que me era caro, não demonstrei a minha razão, ou me anulei para evitar a escaramuça. Nessa altura imagino como seria libertador poder vestir um fato de "Super qualquer coisa", e devolver, um por um os golpes baixos que tão habilmente costumam distribuir, de forma a provarem o seu próprio veneno.
Mas não passa de uma divagação momentânea pois falta-me a experiência em jogo sujo e sinceramente é algo que não quero adquirir.

8 de setembro de 2014

Coisas boas do fim de semana






Manhã de sábado a organizar a casa (estava mesmo a precisar...). Sinto-me logo melhor quando tudo está em ordem.

À tarde fomos ao parque infantil com amigos (miúdos e graúdos), onde estava montada uma pequena feira.
Foram horas de brincadeira, que mais lhe pareceram minutos. Não faltaram bolas de sabão, cachorros quentes, carrinhos de choque e o tradicional carrossel.
Finalizámos o dia todos juntos, com um jantar que mais parecia um banquete, e muita conversa boa.




A minha criatura pequena, adora o carrossel e os carrinhos de choque!
Nisto não sai a mim, que nunca fui fã...



Domingo, do outro lado do rio.
Um céu azul com novelos de algodão doce.
A festa de aniversário de uma amiga, que sem o saber, me relembra o tanto que temos a agradecer sempre. Posta à prova demonstrou ser capaz de encontrar as cores do arco-íris, quando tudo parecia escuro no meio da tempestade, ou de transformar uma musica triste numa elegante dança, que nos encanta e nos faz sorrir.
E que bem que ela dança!



Só foi pena que não pude parar à beira do rio para o fotografar como merecia. Este céu estava de se comer... e a luz... fantástica.
Lisboa vista do lado de lá parecia tirada de um filme.

5 de setembro de 2014

Festa da mochila

O entusiasmo do primeiro dia de escola já esmoreceu. 
À noite o meu filhote tem perguntado : “amanhã é dia de ficar em casa?”, ao que eu respondo que não, só no Sábado e no Domingo.
De manhã chega à escola e não quer ficar. Só quando chega a amiga M. é que ele larga a mão e vai brincar.
Dizem que é normal, que esta fase passa depressa. Mas custa-me na mesma. 
Sei que é natural que tenha saudades dos amigos que deixou, e das rotinas que tão bem conhecia.
Resolvi inventar a festa da mochila.
Convidei a M. e o R., amigos de longa data, com dois filhos que o meu adora e que andam na mesma escola.
Estou a fazer um jantar festivo onde não vai faltar o bolo de chocolate com gelado (toda a gente gosta).
Brindamos ao dia da mochila e ao facto de ele ser crescido. Oferecemos-lhe uma mochila nova com os bonecos preferidos. Marcamos mais uma etapa do crescimento.
Brincam até se cansarem... É este o meu plano.
Talvez assim ele se convença que é mesmo importante e definitivo.
Espero...





3 de setembro de 2014

Não há atalhos

Todos carregamos dentro de nós medos, inseguranças, limitações. O que nos vai moldando como pessoa é a forma como lidamos com isso tudo.
Tenho vindo a descobrir que por vezes, gasto demasiado tempo e energia a arranjar desculpas, em vez de enfrentar o que me incomoda ou procurar uma solução. Como consequência, quando me observo no espelho com olhos de ver, fico assustada com o que ele devolve: A verdade.
Falta a luz na pele, a leveza no olhar. Aquela energia de quem está de bem com a vida, que é impossível fingir.
Mesmo esta constatação nem sempre origina a atitude necessária. Dou por mim, ainda a adiar resoluções, a camuflar sentimentos, a evitar confrontos. Meto um sorriso amarelo na cara e sigo em frente.
Para garantir a sanidade, mantenho-me ocupada, concentro-me naquilo que me faz feliz, e tranco num canto escuro da minha mente, o que não quero enfrentar.

Com o passar do tempo, o que fica recalcado, apodrece, começa a amargar-nos, transformando-se num monstro que nos vai arrastando para a infelicidade. Se não for encarado, cresce, e em momentos de descontrolo ou cansaço, toma conta de nós. Explode.
É nesses momentos que não me reconheço. Parece que não fui eu que dei aquela resposta, que cometi aquela injustiça, ou me comportei daquela maneira absurda e sem sentido.
Na verdade, fui… Mas ao mesmo tempo... não. 
Tudo o que não resolvemos fica a fermentar, vai-nos descaracterizando, e só perde alguma força, quando nos concentramos com grande persistência no que temos de bom, no nosso lado mais luminoso, e no que nos dá prazer.

Durante quanto tempo se pode manter esta instabilidade em equilíbrio, não sei, depende de cada um. Mas a verdade é que mais cedo ou mais tarde tudo desmorona, o monstro toma conta de nós e aí pode ser tarde de mais, causando estragos irreparáveis em nós, e nas pessoas que mais gostamos.
A solução é muito simples: aceitar, enfrentar, dialogar, resolver. Seguir em frente.
Fácil? Não. Mas é a única maneira. Não há atalhos.






2 de setembro de 2014

Regresso


Setembro, é para mim um mês nostálgico.
Quase vinte anos de estudante marcaram dentro de mim um calendário cujo inicio se encontra precisamente neste mês.   
Imagens e sensações invadem-me o espírito.  Cadernos em branco onde tudo pode surgir, lápis afiados prontos para a acção e livros novos com todo um mundo a descobrir.
Mais que as imagens, são as sensações que recordo. A frescura da manhã Transmontana. O cheiro de um dia acabado de nascer, húmido do orvalho onde o sol desperta o brilho de milhões de diamantes.
A pele arrepiada, mal coberta com a roupa de verão, perfeita para o calor do meio dia mas que insisto em usar ás 7h da manhã.
O corpo que treme, um misto de frio e de uma ânsia nervosa, na antecipação de reencontros com promessas febris de recomeço.

Neste Setembro a emoção do primeiro dia, não sendo o ”meu” primeiro dia, acompanhou-me na ansiedade que invade qualquer mãe galinha que acompanha o filho, e o leva segurando a sua mão pequenina, para uma escola nova.
O mesmo nervoso miudinho, a noite mal dormida, o acordar em sobressalto.
Recorro-me do mantra que me tem acompanhado: “Vai correr tudo bem”, “preocupo-me mais eu que ele”, “é uma transição natural”…
São frases que digo a mim própria para me acalmar, mas que na realidade são um balsamo fugaz.
Parece-me tão pequenino, e no entanto sorrio e digo-lhe que já é crescido. Que vai para a escola dos crescidos. Falo-lhe de tantos amigos novos que vai descobrir e de todas as brincadeiras que o esperam.
Quase não me ouve. Vejo a excitação nele, o seu entusiasmo, e isso acalma-me um pouco.
Reconheço-me nele. Os olhos quase demasiado abertos, sem pestanejar, com vontade de conhecer o mundo, que pressente muito maior que o horizonte.
É só mais um principio dos muitos que tem pela frente.
Peço-lhe um beijo e um abraço “dos bons”. Abraça-me com a velocidade de quem está a perder coisas mais importantes, sai a correr em direcção ao recreio sem olhar para trás.
“Mãe vai correr tudo bem”, ouço dizer a quem me observa e reconhece todos os sinais.

Regressei ao trabalho, mas o meu coração ficou lá, naquele recreio, que ainda confundo com outros recreios onde o meu coração cresceu e mirrou ao sabor de caprichos que já não recordo.






1 de setembro de 2014

Setembro

Sei que não controlo tudo, mas continuo ingenuamente a acreditar que controlo alguma coisa.
Até quando ajo por impulso, é com base em algumas premissas que acredito serem sólidas.
Mas a vida troca-nos as voltas sem pedir licença.
Quando acho que tenho tudo planeado ao milímetro, num sopro cai o castelo de cartas que tão cuidadosamente tento construir.
As leis da física podem ser exactas, mas aplicadas ao ser humano tornam-se imprevisíveis. Esta teia de causa/efeito em que vivemos parece construída por uma aranha completamente alcoolizada.
Se por vezes olho em frente, e todo o horizonte se mostra limpo e claro, geralmente parece que me encontro numa floresta densa e escura, com uma de lanterna que não ilumina mais que um circulo à volta dos pés. 
Não vejo o caminho. Sigo entre o instinto e a fé. 
Vou avançando entre quedas e recomeços que me vai ensinando a cautela.
Neste labirinto, dou por mim muitas vezes a caminhar em círculos, a recuar antes de avançar. 
De vez em quando, tenho o conforto de uma direcção que sinto certa ou o jubilo de mais uma meta ultrapassada. E aí, optimista, sorrio e ganho o animo para a próxima etapa.