14 de setembro de 2014

Corrida do Tejo

Corrida do Tejo ... ou caminhada, vá.

Gosto de planear, e de seguir esse plano prévio. Os planos dão-me segurança e ajudam-me a sentir mais confortável. Mas ultimamente, imprevistos são o que mais me acontece, por acaso (ou não) esses imprevistos acabam por me dar perspectivas novas sobre situações, sítios e pessoas. Coisas que começam "mal" e acabam por correr bem!
Hoje foi mais um exemplo disso.

Preparei tudo de véspera, a roupa, a máquina fotográfica, a mochila com tudo o que poderia precisar.
Cheguei cedo à estação, dava tempo de sobra para chegar a Algés a horas. Entrei, e o comboio já vinha cheio. Cabe sempre mais um. Quando chegámos a Paço de Arcos já parecia-mos sardinhas em lata. Mas não faz mal. O espírito estava em alta. As pessoas estavam em pequenos grupos bem dispostas, e com uma energia muito positiva. Saímos de forma ordeira na estação de Algés, e seguimos em direcção à zona da partida.

Momento do baque.
Tiro a máquina fotográfica da mochila, faço o enquadramento para registar a multidão de gente à minha frente, e quando primo o botão... Não tinha cartão na máquina. Ficou no computador, pois tinha descarregado fotos na noite anterior.
Não me esqueci de carregar a bateria, mas o cartão... ficou em casa.
Nos primeiros minutos fiquei a recriminar-me pelo erro de principiante. De facto as fotografias na marginal, sem carros, de manhã, em sítios que só desta forma poderia fotografar, foram o motivo que me levaram a inscrever na corrida sozinha. Claro que o passeio também me animou, mas foi a possibilidade de fotografias únicas que me fez sair da cama cedo num domingo de manhã.
Parei de me insultar mentalmente e decidi aproveitar. Aproveitar mesmo. O ambiente, a paisagem, a caminhada. Sem fotografias e sem companhia para conversar, poderia pela primeira vez saber a minha média real de caminhada em terreno sem obstáculos.

Deu-se a partida. Inicialmente foi a confusão geral, quem corre, a tentar passar por quem caminha. Quem caminha a tentar não ser um estorvo. Lá segui calmamente na minha passada possível.
Foi muito giro observar as pessoas a correr á minha frente. Nunca tinha visto (reparado), em tantas maneiras diferentes de correr! Algumas pessoas correm de forma tão engraçada que várias vezes me ri sozinha. Como será que eu corro? com elegância? aos saltinhos? A arrastar os pés? desengonçada? como um robot?... Havia de tudo.
A foz do rio estava espectacular, a agua prateada brilhava e o céu com algumas nuvens, trazia uma luz matinal cristalina, num horizonte limpo pela ultimo aguaceiro.
Reparei pela primeira vez no quase silencio que nos envolvia, só quebrado pelo barulho dos múltiplos pares de  ténis a roçar o asfalto, numa cadencia que me embalava.
Após o primeiro quilometro, as pessoas que corriam foram-se distanciando, fiquei no meio dos grupos do costume, avós, netos, casais jovens com carrinhos de bebé, grupos de mulheres tagarelas (onde eu costumo estar), e casais enamorados.
Desta vez, seguia só. Pude andar ao meu ritmo, ao meu verdadeiro ritmo. Fui avançando gradualmente até que aconteceu uma coisa gira, comecei a passar por pessoas que já tinham passado por mim a correr. Eu caminhava e eles corriam... E passei por varias dessas pessoas mais que uma vez. Comecei a reconhecer alguns... que ultrapassei muitas vezes. Estranho fenómeno...
Ao quilómetro 4 havia água ... e milhares de garrafas vazias no chão.
Entendo que quem corre para ganhar, não se quer preocupar em por a garrafa no lixo, mas perdem assim tanto tempo com isso? Havia muitos caixotes ao longo do percurso.
Algo que me impressionou ainda mais, no meio do mar de garrafas vazias foi a visão de três senhoras já com idade para serem avós, a apanhar cuidadosamente todas as tampinhas para um saco que carregavam. Entendi o motivo e fiquei a pensar nisso. Há neste mundo dois tipos de pessoas, os que passam por ele como uma praga de gafanhotos e os outros, os que guardam as tampinhas para reciclar.
Não quero ser um gafanhoto. Carreguei a minha garrafa até ao fim da prova.

Fiz ao longo da prova vários enquadramentos mentais de imagens únicas, que nunca vou poder rever, pois sei que vão ficar perdidas no fundo do cérebro, algumas recordarei por algum tempo mas há uma que ficou, pela sua singularidade... ou por outra coisa qualquer.
Praia vazia, o mar, o céu, a areia dourada. O banheiro de calções cor de laranja, que passa com um troco de madeira ao ombro, daqueles troncos que por vezes vêm dar à praia. Parecia... Deixo à imaginação de cada um. Posso adiantar que tinha figura de atleta, músculos definidos, bronze ligeiro, e como diria a minha avó, bem apessoado. Não era ele por si só que fazia uma fotografia bonita, era todo o conjunto, a natureza, a luz, a solidão, o momento.

Mais uma cena caricata que recordo: a senhora das palmas solitárias. Só ela, a bater palmas, já a ouvia antes de a ver, passei por ela, e depois da curva ainda conseguia escutar o som das suas palmas, Só suas. O que será que leva uma pessoa a ir para a beira da estrada, sozinha a bater palmas a pessoas que desconhece?
Ao quilómetro 9, quando deveria estar já a ficar cansada, aconteceu o oposto, não sei se foi da musica, ou do facto de saber que estava quase no fim, mas apeteceu-me correr. A mim, que nem para apanhar o autocarro me dava a esse trabalho. Senti uma energia nova, diferente, alegre. Dei dois ou três saltos para descarregar, mas juro que me apeteceu correr. Pus a ideia de lado, pois mesmo que gostasse de tal actividade a bexiga cheia não mo permitiria. Sorri do absurdo da ideia, e continuei no meu ritmo.
A 500 metros do fim passei por um colega de trabalho que seguia com o filho, disse olá e continuei. Não tinham passado mais de 15 segundos, passam por mim os dois a correr. Continuei, passei por eles uns segundos depois, e eles repetiram de novo o sprint. Queriam chegar à meta antes de mim... Ri-me mais uma vez. O orgulho masculino é tramado...

Cheguei á meta. 1 hora e 39 minutos no cronometro oficial. Nada mal, tinha estimado 2 horas.
Segui caminho pelo passeio marítimo, na direcção contrária, de novo até à estação de Santo Amaro onde estava o carro. Na marina parei para ir á casa de banho, pois já não aguentava até casa, (o meu obrigado ao Bernardo do B'Entrevinhos pela simpática atenção).

Não tenho fotografias para guardar, só este relato escrito a quente, antes que as sensações e a euforia desapareçam. Não segui o plano. Mas por isso mesmo, vivi esta caminhada de uma maneira muito diferente do habitual. E foi bom. Atrevo-me a dizer que foi muito bom, se calhar até melhor que o planeado.


O meu gato a interferir nas únicas fotos da "corrida" que consegui tirar.










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