29 de setembro de 2014

Os amigos e o Facebook

Por vezes sinto mesmo muito, a falta de algumas pessoas. De as ter por perto. E quando digo pessoas, é uma maneira de não particularizar e dizer só amigos. Que é uma palavra boa mas que não me chega. Prefiro dizer pessoas que gosto muito, e que não vejo tanto como gostaria. Cada vez mais, vou sabendo delas pelo Facebook. O que fazem, onde vão, o que gostam. Quer queiramos quer não, parece ser normal ficar-se satisfeito só com isto. Mas eu não fico.

Entendo que é um meio de estar a par, ir acompanhando a vida de cada um, mas não é de todo a melhor maneira de nos relacionarmos com quem nos é mais querido. Falta o como, o porquê, o calor, a proximidade, o sentir.
Não se reconhece o sentimento no Facebook, não é possível entender aquele timbre dissonante na voz, ou a variante de um olhar que nos fala directamente à alma. Não se abraça, não se ouvem as gargalhadas. Não se limpam as lágrimas.

Ao fim de algum tempo percebemos que estar "na rede" é pouco mais que uma colecção de instantes captados por telemóvel, ou de frases copiadas que viajam massivamente entre likes, que supostamente dizem tudo sem nada dizer.

Sei que o nosso estilo de vida é cada vez mais desenfreado, todos sentimos a falta de tempo. A maioria das nossas decisões são tomadas após uma qualquer busca no mundo virtual, contribuindo para o resultado, um amontoado de likes que fomos distribuindo por essa rede fora ( contra mim falo, é raro o dia que não uso o senhor google).
Mas no meio de tudo isso, não podemos perder de vista o que é realmente importante para nos manter mentalmente sãos e emocionalmente funcionais.

Não há rede melhor que a rede de afectos, dos reais, que são cimentados por conversas cúmplices à volta de uma refeição cozinhada com dedicação e carinho, um serão que se prolonga sem hora de fim, um copo numa esplanada, ou da partilha de uma qualquer experiência cultural de interesse mutuo.
É a troca a viva voz de experiências pessoais, que nos engrandece, que nos acrescenta, seja da viagem das ultimas férias, do restaurante que nos deslumbrou, ou de qualquer outra experiência que sentimos vontade de partilhar, tenha sido ela agradável ou não. Partilhar somente. Sem nenhum objectivo para além de darmos mais um bocadinho de nós, de confiar.

Também eu aderi ao Facebook. (devo ter sido a ultima do circulo de amigos), uso com parcimónia. Cedi à pressão, "quem não está ligado está fora". E era quase verdade, por vezes sentia-me a leste do paraíso. Fui entendendo que há coisas que já não são partilhadas num telefonema, ou numa conversa banal. é suposto já sabermos, pois está no face!

Penso que se nota não ser eu a maior fã. Em minha defesa tenho alguns motivos: incomoda-me a invasão do meu espaço. Publicidade a toda a hora. Sugestões de temas que não me dizem nada. Pessoas que não conheço a pedir-me amizade...
Mas reconheço-lhe a utilidade e o mérito, encontrei pessoas que tinha perdido de vista, vou sabendo noticias de familiares que vivem do outro lado do Atlântico, sei que posso divulgar rapidamente algo que poderá ser de interesse comum, e há de certeza mais pontos positivos a descobrir...

O importante, na minha opinião, é não perder de vista que se trata de mais um meio, um complemento, mas não substitui a prática física e emocional da amizade. Não passa de um pálido reflexo da verdadeira troca de experiências.

Não se ofendam se não espreito o facebook todos os dias... e se as minhas entradas são escassas. Há outras coisas que gosto mais de fazer.


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