2 de setembro de 2014

Regresso


Setembro, é para mim um mês nostálgico.
Quase vinte anos de estudante marcaram dentro de mim um calendário cujo inicio se encontra precisamente neste mês.   
Imagens e sensações invadem-me o espírito.  Cadernos em branco onde tudo pode surgir, lápis afiados prontos para a acção e livros novos com todo um mundo a descobrir.
Mais que as imagens, são as sensações que recordo. A frescura da manhã Transmontana. O cheiro de um dia acabado de nascer, húmido do orvalho onde o sol desperta o brilho de milhões de diamantes.
A pele arrepiada, mal coberta com a roupa de verão, perfeita para o calor do meio dia mas que insisto em usar ás 7h da manhã.
O corpo que treme, um misto de frio e de uma ânsia nervosa, na antecipação de reencontros com promessas febris de recomeço.

Neste Setembro a emoção do primeiro dia, não sendo o ”meu” primeiro dia, acompanhou-me na ansiedade que invade qualquer mãe galinha que acompanha o filho, e o leva segurando a sua mão pequenina, para uma escola nova.
O mesmo nervoso miudinho, a noite mal dormida, o acordar em sobressalto.
Recorro-me do mantra que me tem acompanhado: “Vai correr tudo bem”, “preocupo-me mais eu que ele”, “é uma transição natural”…
São frases que digo a mim própria para me acalmar, mas que na realidade são um balsamo fugaz.
Parece-me tão pequenino, e no entanto sorrio e digo-lhe que já é crescido. Que vai para a escola dos crescidos. Falo-lhe de tantos amigos novos que vai descobrir e de todas as brincadeiras que o esperam.
Quase não me ouve. Vejo a excitação nele, o seu entusiasmo, e isso acalma-me um pouco.
Reconheço-me nele. Os olhos quase demasiado abertos, sem pestanejar, com vontade de conhecer o mundo, que pressente muito maior que o horizonte.
É só mais um principio dos muitos que tem pela frente.
Peço-lhe um beijo e um abraço “dos bons”. Abraça-me com a velocidade de quem está a perder coisas mais importantes, sai a correr em direcção ao recreio sem olhar para trás.
“Mãe vai correr tudo bem”, ouço dizer a quem me observa e reconhece todos os sinais.

Regressei ao trabalho, mas o meu coração ficou lá, naquele recreio, que ainda confundo com outros recreios onde o meu coração cresceu e mirrou ao sabor de caprichos que já não recordo.






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