31 de outubro de 2014

Dia de todos os Santos

Como já o disse num post anterior, o Halloween não faz parte das minhas recordações mais antigas. Nessas, ao 31 de Outubro chamávamos, com toda a naturalidade, a noite dos mortos.

Nos Trás-os-Montes da minha infância, o dia 31 de Outubro foi sempre dia de "sacudir o pó" e vestir de flores e velas, o cemitério. Era muito importante prepará-lo para receber a visita do padre no dia de todos os Santos.
À noite, acendia-se uma grande fogueira, à volta da qual se reunia a comunidade. Na minha aldeia a fogueira ficava no largo em frente à igreja, ao lado do cruzeiro. No braseiro que se ia formando com o queimar da lenha, assava-mos as primeiras castanhas, mais leitosas, mais macias e mais doces. Os adultos, para afastar o frio que se fazia sentir, passavam de mão em mão a cabaça de aguardente, e o garrafão com o vinho novo. O álcool soltava a língua e recordava-se quem já não estava entre nós, cada qual recordava os seus, os que lhe estavam mais próximos do coração. Histórias eram repetidas, principalmente as divertidas, e o momento era um misto de tristeza, alegria e saudade. 
Entre histórias e recordações, Ia-se atiçando o lume com grandes varapaus, as fagulhas que se soltavam, subiam até desaparecerem no negrume da noite, e em uníssono gritávamos “alminhas ao céu”. 

Perto da meia noite, entre a "miudagem", era lançado o desafio. “quem quer vir ao cemitério?” 
Os mais afoitos, e menos supersticiosos punham-se logo prontos. quanto a mim, adorava ir, pois era a única noite do ano em que se podia presenciar tal cenário. 
A caminhada até lá era feita com grande algazarra, quase ás escuras, pois ficava nos arredores no meio de um souto. Mas ao chegar perto, todos iam falando cada vez mais baixinho...
Tudo no cemitério estava iluminado, tapetes de flores coloridas, cobriam as campas com motivos geométricos e combinações originais, sempre diferentes. As centenas de velas que iluminavam a noite lançavam sobre as flores uma luz absolutamente sobrenatural, criando sombras sepulcrais que bruxuleavam ao sabor da brisa nocturna.
Não entrava-mos. Preenchíamos as grades do portão com as nossas caras deslumbradas pela cena surreal. Naquele momento não se diziam graçolas, nem coisa nenhuma. Ninguém se atrevia. Para além do respeito, o medo crescia devagarinho. Imóveis, ficava-mos à espera que outro que não nós, desse parte de fraco. Mais cedo ou mais tarde, havia sempre alguém que virava costas e desatava a correr de volta para a fogueira, e aí quebrava-se o feitiço, todos o seguia-mos sem excepção e não se falava mais disso. Tínhamos cumprido o rito. 

Quando era miúda, via tudo como uma festa, mas hoje acredito mesmo, que para algumas pessoas havia um certo conforto nesta ligação com os antepassados. Parece-me também que a origem desta tradição poderá ser mais pagã que católica, mas era praticada com todo o fervor religioso, e a sua catolicidade não era posta em causa.

Aceito que esta minha recordação, para alguns possa parecer folclórica, ou mesmo macabra. Ainda me lembro do dia, (andava eu na faculdade), em que propus ao namorado da altura, ir ver o cemitério na noite de 31 de Outubro. Primeiro achou que estava a brincar, quando percebeu que era a sério, começou a olhar para mim como se eu pertencesse a uma qualquer seita. E foi muito difícil convence-lo que só lá queria ir presenciar a beleza do momento. É claro que foi impossível leva-lo a aproximar-se do local. Foi um momento de saudade, o que me deu. O costume perdeu-se na minha aldeia. Já só lá mora um punhado de pessoas que mal sai de casa quando chega o frio. E eu entendo, mas é pena.

Hoje as nossas crianças só conhecem abóboras, trajes carnavalescos, e em vez do pão por Deus gritam doce ou travessura.
Gosto de ver as crianças felizes, não tenho nada contra o doce e travessura, e não quero de modo algum levá-las para o cemitério, além disso o ritual da fogueira é quase impraticável, salvo nessas pequenas comunidades. 
Mas acho que devemos, contar estas histórias, falar delas para que não caiam no esquecimento. Pois lamento que se vá perdendo a identidade cultural, e que se desprezem as nossas tradições para as substituir por outras importadas, porque acredito que o caminho para o futuro passa também por recordar e respeitar o passado.



29 de outubro de 2014

A minha pequena criatura assustadora

Vim a saber recentemente que na nova escola do meu filho têm por hábito fazer um desfile de Halloween. Não é comemoração que me diga muito, até porque não faz parte das minhas recordações de infância, mas como é mais um motivo para os miúdos se divertirem, lá dei permissão para que participasse. Isso colocou-me perante o desafio de desencantar uma fatiota. O pai (ainda mais entusiasmado que o filho) planeou embarcar na aventura dos trabalhos manuais, e criar um fato original do boneco preferido do filhote, o Perry Ornitorrinco da série de desenhos animados Phineas e Ferb
Acontece que o tempo (que não dá para tudo) foi passando… Chegámos à semana do acontecimento e nada de fato.

Feitas as devidas pesquisas na Net, concluímos que o fato do Perry era para esquecer, não existe. Sobrou a alternativa, o segundo personagem preferido (no momento) do meu filho, o Darth Vader… 
Optámos por ir ao centro comercial Colombo, pois reunia num mesmo espaço o Toys R Us e a Disney, duas lojas onde confirmámos existir o fato em causa. 
Estava quase convencida com o do Toys R Us, era mais barato e trazia na mesma caixa dois fatos, um de Darth Vader e um de stormtrooper (ficava já para o Carnaval). Mas mal lho experimentei percebi que não seria uma boa opção, a mascara magoava no nariz, tinha má visibilidade e o sabre de luz era um perigo para os outros meninos.

Fomos à Disney.Tudo era de melhor qualidade, e o mais importante, a mascara assentava bem na cara e tinha boa visibilidade. Experimentou para ver que tamanho trazer. E aí é que foi a loucura… Soltou-se a fera…  
Quando se viu com o fato vestido não mais o largou. Perseguiu com gritos “assustadores” e braços no ar, todas as pessoas que encontrou na loja. 
As empregadas, umas queridas, alinharam na brincadeira e foi tanto um grande rebuliço, como um momento de diversão pura para a minha pequena criatura assustadora.
Finalmente lá o apanhámos para pagar e voltar para casa. Impossível mesmo foi convence-lo a despir o fato, pelo que saiu da loja completamente mascarado.

A travessia do Colombo foi um momento digno de um episódio de Candid Camera. Merecia ter sido gravado, mas não tive essa presença de espírito...
O pequeno Darth Vader, da loja da Disney até ao estacionamento, perseguiu toda a gente que encontrou. E foi caricato, além de divertido ver as diferentes reacções das pessoas.
Umas riam a bandeiras despregadas e alinhavam na brincadeira, outras faziam cara de leite azedo por serem incomodadas, e olhavam para nós com olhares reprovadores. Houve quem abanasse a cabeça como quem diz “que parvoíce”,  e outros, os mais distraídos, saltavam com o susto do inesperado, fazendo as delicias da minha criança, por ter sido verdadeiramente assustador.
Chegou a casa em puro delírio no seu papel de mauzão, e foi complicado convence-lo a tirar o fato para dormir.

Eu sei que ele gosta dos personagens da guerra das estrelas, pois para além de ver os desenhos animados sempre que pode, os legos das naves são o seu brinquedo favorito, mas intriga-me o facto de em nenhum momento se ter deixado convencer a trocar o fato de Darth Vader pelo do Luke Skywalker, do Yoda ou de um outro qualquer jedi. 
Ser mauzão é mais divertido, ou deverei ficar preocupada?



28 de outubro de 2014

Entre a dor e o prazer

Ao fim da tarde a preguiça ronda-me, sinto-a a colar-se a mim. Entra de mansinho sem se dar por ela para me amolecer. Devagar e sub-repticiamente. Questiono-me. Vou? Fico?
No fundo do meu cérebro ainda permanece o eco da ultima vez, a lembrança de como foi bom. Como pode ser bom.
Sacudo a inercia, recuso-me a render à lassidão natural do final do dia e ás desculpas de ultima hora. Agarro-me ao que sei ser uma lembrança boa, e vou.

O inicio nunca é fácil, começamos devagar. Demoro a reagir aos estímulos.
Redescubro o meu corpo. Deixo que a tensão vá crescendo. Concentro-me nos pontos chave.
Quando chega o desconforto fecho os olhos, ausento-me de mim. Invoco um Mantra. Não sou eu que estou ali, é só um corpo, uma fonte de dor e de prazer. Ouço a musica e mexo-me numa cadência que me hipnotiza.
Por vezes olho-nos ao espelho. Observo a elegância dos movimentos, corrijo a postura, sinto o suor que escorre devagar, partículas salgadas que temperam e nos refrescam a pele.
Estampado no nosso rosto, vislumbro o esforço e procuro a  satisfação teimosa de quem o faz por gosto.

Abrandamos para recuperar o fôlego. Subir, descer. devagar. controlado. 
E nesta dança sincronizada mudamos o ritmo. Rápido, rápido, lento.
A mudança de posições sucede-se. 
A respiração torna-se ofegante, e o corpo que já conhece esta coreografia, entrega-se e aceita.
Saboreamos o agridoce da dor. Sentimos o cansaço. Adivinhamos a chegada do limiar. O corpo treme mas aguenta e aguarda em antecipação. 
É nos contrastes que a vida tem mais sabor. É depois do trabalho árduo que a recompensa sabe melhor.
Perto da desistência, no momento em que parece impossível repetir, muda a musica, abranda o ritmo baixa a intensidade. As luzes apagam-se e deixamos-nos embalar. É a rendição.
Os músculos entregam-se. A respiração acalma. Os olhos fecham e caímos num vórtice estonteante. Como se de uma imensa tontura se tratasse. Como se estivesse-mos em queda livre sem gravidade. Deitados, deixamos de ter peso e o calor percorre-nos de dentro para fora.
A recompensa, o alivio, o êxtase. O relaxamento final.
O corpo arrefece, a sonolência chega e não podemos ficar. Acabou. Está na hora de abrir os olhos, levantar, e correr para o duche. A aula (por hoje) acabou. 







Fragmentos de Outono


Uma caminhada não traz só paisagens de encantar...


Como se diz por aí : " A beleza está (também) nos pormenores."

27 de outubro de 2014

Caminhada em Castelo de Vide

Isto das caminhadas, é algo que aprecio cada vez mais.
Para além do convívio com pessoas que partilham deste gosto, alarga-me o horizonte.  Visito ou revisito sítios com um novo olhar e um respeito crescente.
Claro que não me agrada acordar ás 6 da manhã ou mais cedo ainda, admito que a viagem pode ser longa e entediante, mas uma vez a caminhar, a respirar o ar puro da natureza, a subir e a descer trilhos, florestas e serras tudo isso desaparece, esfuma-se como a bruma da manhã ao sol. Desta vez foi em Castelo de Vide.




O tempo estava esplêndido. Quando me inscrevi para esta, já há algum tempo sabia que era arriscado, que podia estar a chover, mas confiante no Verão prometido para Outubro decidi que as probabilidades estavam a meu favor. Tive sorte.

Saídos de Lisboa ás 7h da manhã, chegámos a Castelo de Vide passava das 10.  
Tomámos o segundo pequeno almoço no Doces e Companhia, onde o difícil foi escolher, e iniciámos a caminhada em direcção à serra de São Paulo, deixando para trás a Vila.

























O inicio de cada caminhada é sempre um misto de excitação entusiasmo, que nos leva a acelerar o passo na ânsia de abarcar tudo sem demora. Neste caso fomos rapidamente recompensados num miradouro com uma vista de tirar o fôlego.






Uma boa parte do percurso foi feita  em troços de uma calçada Medieval que ligou em tempos Castelo de Vide e Portalegre, facilitando desta forma a nossa caminhada e tornando-a mais interessante, pois de pensar que aquelas pedras lisas já foram percorridas por Lusitanos de tempos imemoriais, leva-me a dedicar-lhe os passos como se de uma homenagem se tratasse. 





A subir para a igreja de Nossa Senhora da Penha, passámos a Fonte Santa, que diz-se ter surgido do chão como por milagre, no inicio das obras da Igreja para saciar a sede a quem necessitasse.











Do adro da capela a vista panorâmica sobre a vila é verdadeiramente assombrosa, compensa largamente a escadaria percorrida para lá chegar.









A caminhada repleta de beleza natural teve também o seu momento de humor, quando nos deparámos com um belissimo escritório alcatifado a relva, do mais puro verde alentejano.

Após a volta pela serra, regressámos para o tão desejado (e merecido) almoço no restaurante D. Pedro VLocalizado na praça do mesmo nome é uma referência gastronómica da região. 
Confesso que parte do encanto destas caminhadas reside no almoço. Este é o momento de me deliciar com algo típico de cada recanto visitado. Neste dia o prato principal era composto de veado estufado com castanhas. Apesar da estranheza inicial do veado, combinado com o sabor das castanhas, acabou por ser um prato bem conseguido. A sobremesa conventual á base de doce de ovos e castanha, tendo sido muito elogiada por todos, no meu entender era excessivamente doce.
Findo o almoço e antes de continuar para as ruínas da cidade romana de Ammaia "saqueámos" as lojas do centro da vila para trazer os bolos típicos da região. Eu perdi-me por umas queijadas e boleima de maçã, doce que não conhecia e do qual fiquei fã!  



A Cidade Romana de Ammaia a meio caminho de Marvão e Castelo de Vide é uma visita que recomendo a quem por lá passar. Entre castanheiros, aveleiras e outras árvores de fruto, podemos apreciá-la e constatar que pouco resta das construções. Tal como outras, foi "saqueada" ao longo dos séculos para construir palácios e igrejas em Portalegre. Muitas das pedras foram também utilizadas na construção das muralhas de Marvão e de Castelo de Vide e em várias edificações particulares.

Apenas uma ínfima parte da zona baixa da Cidade de Ammaia foi objecto de escavação, por isso é difícil ter uma ideia de como seria nos seus tempos áureos, ou a sua extensão real, mas pelas peças encontradas e expostas no interior o museu, podemos inferir que teve alguma importância. 



Ainda antes de voltar para Lisboa, mesmo no final do dia, não pudemos deixar de visitar Marvão.



Marvão, no meu entender para além de lindo é acima de tudo imponente. Visto de fora faz-me lembrar um navio de pedra encalhado no cimo da Serra. Na sua proa o castelo observa o vale á sua frente como se de um vigilante se tratasse.
No interior das muralhas a pequena vila caiada de branco repousa confiante da sua inexpugnabilidade. 





No adro da igreja pequenos grupos de pessoas locais, aproveitavam os últimos raios de sol de Outono. Observavam-nos de máquinas fotográficas em riste, a tentar captar a beleza natural da sua vila, e sentia-se nesse olhar toda a sua admiração pelo património que partilham com quem por lá passa.

Cheguei a casa cansada mas de alma cheia. 
E trouxe comigo muito mais que um saco de doces deliciosos, trouxe recordações repletas de imagens inesquecíveis. 

22 de outubro de 2014

Agora é apanhar os cacos ... e colar.

Neste momento nada do que eu possa dizer interessa.
Ficam para trás tentativas inúteis de ajudar. Receios infundados de piorar a situação. Longas conversas. SMS trocados em desespero, fúria e desolação.
Foste o que eu sempre soube que eras, Guerreira, defensora de quem sofre e não se pode defender.
Vestiste uma armadura e recebeste o embate sem vacilar. No auge da batalha fraquejaste algumas vezes, mas nunca perdeste o foco ou a razão. Nunca tiveste dúvidas sobre o que fazias ali, o que deveria ser feito. E foste em frente.
Agora acabou.
Outras escaramuças virão, réplicas de um sismo avassalador, mas descobriste a tua força o medo já não te atormenta.

Sabes que não podes usar essa armadura para sempre. Quando já não precisares dela, sentir-lhe-ás o peso. Nessa altura larga-a, resiste à tentação de viver dentro dela, o que não faz falta só atrapalha.
A adrenalina acaba e a dor chega sem pedir licença, implacável e bruta. Aceita-a, abraça-a, chora grita, revolta-te, liberta tudo. O que ficar dentro de ti só te fará mal.
Quando finalmente o grito perder a força, e o sono começar a chegar naturalmente, então terá inicio o processo de cura.
Nunca mais serás a mesma. ninguém volta da guerra como foi.
Ouvi (a quem travou uma batalha parecida), que quem volta, traz capacidade de distinguir entre o que vale realmente a pena e o que não interessa. O que merece atenção e o que é desperdício de tempo. Sei que isto não compensa tudo o que se perdeu, mas pode ajudar a valorizar o que ficou.

* Lamento não te ter podido ajudar. Lamento a tua perda, também a mim me dói (sem comparação possível!). Sabes que gosto de ti como és, seja de que maneira fores, basta-me que sejas tu.

20 de outubro de 2014

A procura do Outono

No domingo tentei fotografar o Outono.
Desde que começou a chover que andava com a ideia de fotografar uma floresta.
No meu querido parque natural de Montesinho saberia exactamente onde ir, mas por aqui, não me lembrei de nenhuma. Pensei em Sintra, mas já era tarde para ir à serra e por isso dei só uma voltinha no centro. Acabou por ser uma má escolha, porque fiquei do lado errado da vila para o objectivo, o lado da sombra.
Deixei o meu filho com o pai num parque infantil e lá fui eu, tentar captar o Outono em modo lufa lufa, qual turista oriental de máquina em riste.
O resultado não foi muito satisfatório, não encontrei os motivos que procurava, mas compensei largamente com as deliciosas queijadas e travesseiros de Sintra na Casa do Preto, pausa obrigatória na volta para casa.













19 de outubro de 2014

Na terra do son(h)o

Quando posso, ao fim-de-semana durmo até tarde, já o tinha dito aqui, não é segredo. Geralmente é para compensar noites muito mal dormidas, mas nem sempre. Por vezes durmo mais que o necessário, e não é por preguiça.
Desde que me lembro de ser gente (2,3 anos de idade), que entendo o acto de dormir como algo muito mais que a necessidade de descanso ou um desligar da consciência. Dormir é uma porta para um infinito de possibilidades. Refiro-me à capacidade de sonhar, algo que todos temos, mas que cada um usa de maneira diferente. Quem diz que não sonha, simplesmente não se lembra.

À noite quando programo o despertador, calculo o tempo suficiente para descansar mais um bocadinho, recuperar do deficit de sono acumulado durante a semana, e aponto para uma hora que me permita aproveitar o dia. Quando tenho planos, levanto-me mesmo que me custe (a razão fala mais alto), mas se não tiver e o sonho me agradar, desligo, viro paro o outro lado e volto a embrenhar-me na história que está a decorrer. Recuso-me a acordar.
E quando digo história, por vezes é quase isso, tem personagens, cenários e situações que fazem sentido. Parece um filme onde sou a actriz principal, com cenas de uma vida que não tenho, mas na qual parece que me enquadro na perfeição.
Fico sempre com pena de não conseguir reter na memória a recordação, tempo suficiente para a escrever. Lembro-me dos traços gerais, das sensações e dos últimos momentos, mas se não me sentar a escrever mal me levanto, tudo se desvanece.

Nestas vidas alternativas que o meu subconsciente inventa, afasto-me da realidade, distancio-me da monotonia diária que ás vezes me entorpece, vivo experiências que só são possíveis assim, no limiar entre os dois mundos.
Hoje por exemplo vivia numa quinta espectacular, com verde a perder de vista. Árvores carregadas de fruta e uma casa parcialmente de pedra com um daqueles alpendres a todo o comprimento da fachada principal, virado para um vale de cortar a respiração. O sol batia nas pedras negras de xisto, aquecendo-as e temperando o frio que já se faz sentir no Outono. Eu balançava-me numa cama de rede olhando o meu filho que brincava no chão com outra criança. Faziam estradas de terra, marcadas com pedrinhas que apanhavam com todo o cuidado. Eu, entre a atenção ás brincadeiras das crianças e o balançar cadenciado da cama de rede, mantinha uma conversa obviamente cúmplice com ... Podia continuar, mas este nem sequer foi o sonho que mais gostei hoje.

Por vezes neste dormitar pouco profundo, regresso a encruzilhadas da vida mal resolvidas, e tenho uma segunda oportunidade. Quando acordo sinto-me mais leve, com a certeza que sei fazer melhor, que aprendi alguma coisa.
É incrível como algo que nasce na minha cabeça e que nunca aconteceu, me leva a conclusões por vezes surpreendentes acerca do que sinto, em relação a pessoas e situações.
Em termos de percepção, o passado e as recordações difusas que guardamos dele, em pouco se diferenciam destes sonhos que me invadem para me mostrar caminhos novos ou ajudar a resolver opções de que arrependo, e eu aceito esta via sem preconceitos.
Porém falo de luz e de sombra, e é nesta sombra que encontro muitas vezes a minha luz, pois nos sonhos sou feita de coragem, nada fica por dizer ou fazer, e ninguém me pode fazer mal. Sou sempre a heroína de uma aventura escrita à minha medida, ou pelo menos à medida do meu alter-ego. E é bom ser eu. Ser verdadeira sem consequências. Voar sem asas. Ser criança, adolescente, adulta. Pirata, princesa, cortesã. Fotógrafa da National Geographic, escritora, piloto de caças, e tantas outras coisas, que no sonho sonhado, quem traça os limites somos sempre nós.







17 de outubro de 2014

Lesmas acéfalas

Já disse que me irritam as pessoas que hoje dizem uma coisa e amanhã outra, só porque lhes é mais conveniente?
E não, não se trata de mudarem de ideias, isso é normal, pode acontecer a qualquer um de nós.
O problema é não as terem. É falta de ideias e de espinha dorsal!




Nota-se muito que hoje tive um dia difícil? Tive.
Amanhã será melhor.

15 de outubro de 2014

O que faria ela?

Tenho a cabeça a mil. Em hemisférios opostos travo a eterna batalha entre a razão e a emoção. Esgrimo argumentos. 

Falámos ao telefone. Fiquei feliz porque ligou, porque me disse que isso a ajuda. Mas estou a tentar decidir se devo ou não acatar o seu pedido de não interferência. Sinto-lhe os gritos silenciosos. Ouço o que não é dito. adivinho o jogo de espelhos. 
A minha vontade é ignorar o "bom senso" e ir lá. Apanhar o comboio e simplesmente dizer, estou aqui. Mas vacilo. Já me foi explicado por A mais B que o melhor é ficar por cá, que só lhe consumiria o pouco tempo que tem para o que é mais importante. 
Racionalmente faz sentido, entendi os motivos, não lhe quero dispersar a atenção, se calhar atrapalho mais que ajudo. 
Mas o coração diz que é para ignorar a lógica, que em questões do sentimento, a cabeça só nos atrasa. 
Volto a remoer os argumentos, listo os prós e os contras. Dou-lhes mais uma volta. Procuro um novo ângulo. Algo que me tenha escapado. Estou num impasse.
Custa-me estar tão longe. Não fazer nada. Ser só ouvidos. Não ser abraço. Não poder olhar nos olhos. Imaginar. 
E agora que li na frase que acabei de escrever, a palavra "custa-me...", realizo que não quero ir só por ela. É também por mim. E eu nesta matéria, por comparação com tudo o resto, sou insignificante. Não faço parte da equação.
Vai daí, pergunto-me : O que faria ela se a situação fosse ao contrário?  Se fosse eu a dizer não venhas...
O que faria ela?






13 de outubro de 2014

Sinto-me enganada

O frio chegou e apanhou-me na curva. Ainda de sandálias, travei uma dura batalha com a vontade de me enroscar no cobertor como se fosse Inverno. O cobertor ganhou. Arrumei as sandálias.
O Outono mal começou! O frio e a chuva escusavam de ter pressa de chegar, têm tempo.
Nem pude fotografar a palete de cores que veste as árvores de folha caduca nos tons maravilhosos a que gosto de chamar dourado, tijolo, cobre, mostarda, ocre...
Se esta chuva continua leva tudo rapidamente, e nem uma folhinha para amostra.
Além disso, quem foi que me prometeu o Verão em Outubro?
Sinto-me enganada.

11 de outubro de 2014

Cinderela ou gata borralheira

Admiro as mulheres que estão sempre compostas. Melhor dizendo, sempre giras. Bem maquilhadas, bem penteadas e com ar de quem vai a uma festa ou à entrevista da sua vida.
Conheço algumas assim, sempre impecáveis. Nem ao fim de semana se permitem ao desleixo. Pijama em casa, só para dormir. Sejam férias, ou fim de semana o ritual não muda. Arranjadas sempre como se fossem à missa, ao teatro, ou para um encontro especial. Não há cá pijamas largos, roupões cor de rato ou t-shirts velhas.
Eu confesso, sou o oposto. Mal chego a casa, se sei que não volto a sair e não espero visitas, vou logo vestir o pijama e calçar uns chinelos.
Ao fim de semana a palavra de ordem é conforto. Calças de ganga ou equivalente, ténis ou sandálias, conforme a estação do ano. A cara sempre lavada. E isto quando decido sair de casa. Porque se ficar o dia todo por casa, sou bem capaz de nem o pijama tirar... Mas porque estou eu com estas considerações?
Porque um amigo comentou comigo, a propósito deste hábito que algumas de nós têm de viver em casa de pijama, que só nos pomos bonitas para os colegas de trabalho. E na realidade, apesar de ter dito "que parvoíce", fiquei a pensar no comentário, e acho que ele até tem alguma razão.
Apesar de achar que este "desleixo" acontece, porque se atingiu um grande nível de confiança e à vontade com o companheiro ou marido, a verdade é que ás vezes somos capazes de estar a exagerar.
Na prática muitas de nós, (excepção feita a dias especiais), concordam que os saltos altos, a maquilhagem, as roupas mais giras, são para usar 5 dias por semana das 9 ás 18. Consequentemente, quem nos vê no nosso melhor acabam por ser os nossos colegas. Bem calhando, este até é mais um dos motivos, que contribui para que a maioria dos casos extra-conjugais se dê no local de trabalho. Será?

8 de outubro de 2014

Pausa

Por vezes, para conseguir avançar, é preciso parar.
Respirar fundo. Perguntar onde queremos ir. O que é realmente importante.
Olhar em volta, mais que olhar, ver.
E se desconfiarmos por um momento que seja, que os nossos olhos nos enganam. Fechá-los. Sentir apenas. Ouvir o nosso coração bater. Sossegar a nossa respiração e deixar que a calma se instale.

Por vezes, para conseguir andar em frente é preciso dar um passo atrás. Ou vários. Pois as linhas rectas são muito bonitas, mas raras, que a vida é cheia de curvas e contra curvas. E raramente neste labirinto onde nos movemos, conseguimos adivinhar as direcções sem sentido. Principalmente se não vemos os sinais com a pressa de seguir em frente.

Por vezes andar muito depressa, é andar mais devagar. É fazer o caminho errado duas vezes.
A ir. E a voltar.



5 de outubro de 2014

5 de Outubro

O que nem toda a gente sabe: 

Apesar de oficialmente ser comemorada a implantação da República, em Portugal, em 1910. Neste dia, simpatizantes da causa monárquica costumam celebrar, por seu lado, o nascimento do Reino de Portugal, em 1143.
A razão : O tratado de Zamora foi um diploma resultante da conferência de paz entre D. Afonso Henriques e seu primo, Afonso VII de Leão e Castela. Celebrado a 5 de Outubro de 1143, esta é também considerada como a data da independência de Portugal e o início da dinastia Afonsina

(Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.)

Santaryn ou Scallabis

Santarém, capital do Gótico, cidade de Reis e Rainhas, ordens religiosas e palco de momentos chave da nossa História.
Cidade da História e com histórias que vale a pena descobrir. Peço emprestada a descrição perfeita de Almeida Garrett, "Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais prática das nossas crónicas está escrita".
Uma cidade que vale a pena conhecer, pela simpatia das sua gente, maravilhosa gastronomia, e impressionantes monumentos.












 




A minha única experiência de Santarém era o festival de gastronomia, ao qual fui várias vezes antes de ser mãe. Sempre de noite, e com o objectivo de comer belos petiscos (objectivo sempre cumprido). 
Desta vez fui de dia para descobrir a cidade, enquanto a criança pequena e o pai foram ver o torneio internacional de aeromodelismo Wings Of Portugal
Foi uma bela manhã, a fazer o que mais gosto, andar sem destino, descobrir recantos e encantos desta bela cidade entre ruas e travessas. Sei que muito ficou por ver, pois não tive guia, mapa ou preparação prévia, mas mais uma vez, andar sem destino permitiu-me seguir o meu nariz, o meu instinto e sempre ao meu ritmo.
Voltei com a já habitual mostra da doçaria local, a saber, Celestes de Santa Clara, Pampilhos, queijadas de amêndoa, arrepiados de Almoster.   

Já sinto a minha Canon G12 um pouco limitada. Urge procurar uma máquina que me devolva a imagem que procuro.