2 de outubro de 2014

Da Inveja

Há uns dias numa conversa de amigos, falávamos entre outras coisas de férias. No meio da conversa o amigo X disse que ia de férias para o destino Y. Imediatamente eu disse: Que inveja!..., esse é um dos meus destinos de sonho!
Ao que ele respondeu, com o dedo em riste : "Ser invejoso é uma coisa muito feia."
Eu, apanhada de surpresa com a resposta, disse: "inveja..., mas da boa..."

Confesso que fiquei a pensar no assunto.

O que significa inveja da boa?
Neste exemplo concreto das férias, significa só, que tenho pena de não poder ir também. Significa que o facto dele ir não me causa tristeza, ou mágoa, antes pelo contrário, fico contente por termos esse gosto em comum. Além disso quando voltar poderei ver as fotografias, ouvir as histórias da viagem, e sonhar mais um bocadinho com o dia em que também lá irei.

Que a inveja é feia, é algo que ouvimos desde crianças. Quem teve uma educação católica sabe que é um dos pecados mortais. Seja em que religião for, aprendemos que a inveja é má , e geralmente é.

É má quando não gozamos a nossa própria realidade, porque achamos que os outros se divertem mais que nós. Quando secretamente esperamos que alguém falhe, ainda que isso não nos traga qualquer vantagem. Quando nos tolhe, quando não conseguimos ver o que somos e o que temos, porque só olhamos para os outros.
É má quando nos impede de ser generosos. E principalmente quando nos impede de ser felizes. 

Voltando à inveja boa. A meu ver, é o oposto da má.
Ou seja, é aquela "sensação estranha" que mexe connosco no bom sentido, que nos acorda, que nos impulsiona a ser melhores. Que nos espicaça, que nos obriga trocar o quentinho do sofá por algo que dá trabalho mas vale a pena.
É boa quando olhamos para alguém que admiramos e pensamos, "eu gostaria de ser um bocadinho assim". E questionamos-nos: " O que me falta para lá chegar? O que posso fazer?"
Ao longo da nossa vida, todos conhecemos pessoas que nos marcaram, que considerámos modelos a seguir e a quem "invejámos" determinadas características. Quando o sucesso dessas pessoas nos faz felizes e nos dá o animo para nos esforçarmos ainda mais a atingir o que desejamos, isso é também inveja da boa.

Tenho sempre presente, que o sucesso e as coisas boas, raramente acontecem por acaso, na maior parte das vezes têm origem no trabalho árduo, em escolhas (por vezes) difíceis, e algum sacrifício pessoal. Acontecem a quem lutou por elas, a quem arriscou. Ver acontecer mostra que é possível. Deve (pode) ser encarado como encorajador.

No exemplo particular das férias do meu amigo, sei que implicou escolhas, acredito que ele abdicou de algumas (ou muitas) coisas para poder ter disponibilidade pessoal e financeira para as concretizar.
Ele fez as escolhas dele e eu fiz as minhas, o que eu escolhi também me traz felicidade e não trocava as minhas escolhas pelas dele. Claro que gostava de ter tudo: o que não abdiquei, e as férias num sítio espectacular. Mas este tudo raramente é possível.

É verdade que a vida tem muito de imponderável e de acaso. Mas os resultados que nos surgem diariamente, são tanto consequência desse caos cósmico, como das nossas escolhas, e do nosso trabalho.
Ter essa consciência transfere (em grande parte) para nós, a causa do nosso sucesso e da nossa felicidade. E perante isso ter inveja (da má) parece-me ridículo.


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