31 de outubro de 2014

Dia de todos os Santos

Como já o disse num post anterior, o Halloween não faz parte das minhas recordações mais antigas. Nessas, ao 31 de Outubro chamávamos, com toda a naturalidade, a noite dos mortos.

Nos Trás-os-Montes da minha infância, o dia 31 de Outubro foi sempre dia de "sacudir o pó" e vestir de flores e velas, o cemitério. Era muito importante prepará-lo para receber a visita do padre no dia de todos os Santos.
À noite, acendia-se uma grande fogueira, à volta da qual se reunia a comunidade. Na minha aldeia a fogueira ficava no largo em frente à igreja, ao lado do cruzeiro. No braseiro que se ia formando com o queimar da lenha, assava-mos as primeiras castanhas, mais leitosas, mais macias e mais doces. Os adultos, para afastar o frio que se fazia sentir, passavam de mão em mão a cabaça de aguardente, e o garrafão com o vinho novo. O álcool soltava a língua e recordava-se quem já não estava entre nós, cada qual recordava os seus, os que lhe estavam mais próximos do coração. Histórias eram repetidas, principalmente as divertidas, e o momento era um misto de tristeza, alegria e saudade. 
Entre histórias e recordações, Ia-se atiçando o lume com grandes varapaus, as fagulhas que se soltavam, subiam até desaparecerem no negrume da noite, e em uníssono gritávamos “alminhas ao céu”. 

Perto da meia noite, entre a "miudagem", era lançado o desafio. “quem quer vir ao cemitério?” 
Os mais afoitos, e menos supersticiosos punham-se logo prontos. quanto a mim, adorava ir, pois era a única noite do ano em que se podia presenciar tal cenário. 
A caminhada até lá era feita com grande algazarra, quase ás escuras, pois ficava nos arredores no meio de um souto. Mas ao chegar perto, todos iam falando cada vez mais baixinho...
Tudo no cemitério estava iluminado, tapetes de flores coloridas, cobriam as campas com motivos geométricos e combinações originais, sempre diferentes. As centenas de velas que iluminavam a noite lançavam sobre as flores uma luz absolutamente sobrenatural, criando sombras sepulcrais que bruxuleavam ao sabor da brisa nocturna.
Não entrava-mos. Preenchíamos as grades do portão com as nossas caras deslumbradas pela cena surreal. Naquele momento não se diziam graçolas, nem coisa nenhuma. Ninguém se atrevia. Para além do respeito, o medo crescia devagarinho. Imóveis, ficava-mos à espera que outro que não nós, desse parte de fraco. Mais cedo ou mais tarde, havia sempre alguém que virava costas e desatava a correr de volta para a fogueira, e aí quebrava-se o feitiço, todos o seguia-mos sem excepção e não se falava mais disso. Tínhamos cumprido o rito. 

Quando era miúda, via tudo como uma festa, mas hoje acredito mesmo, que para algumas pessoas havia um certo conforto nesta ligação com os antepassados. Parece-me também que a origem desta tradição poderá ser mais pagã que católica, mas era praticada com todo o fervor religioso, e a sua catolicidade não era posta em causa.

Aceito que esta minha recordação, para alguns possa parecer folclórica, ou mesmo macabra. Ainda me lembro do dia, (andava eu na faculdade), em que propus ao namorado da altura, ir ver o cemitério na noite de 31 de Outubro. Primeiro achou que estava a brincar, quando percebeu que era a sério, começou a olhar para mim como se eu pertencesse a uma qualquer seita. E foi muito difícil convence-lo que só lá queria ir presenciar a beleza do momento. É claro que foi impossível leva-lo a aproximar-se do local. Foi um momento de saudade, o que me deu. O costume perdeu-se na minha aldeia. Já só lá mora um punhado de pessoas que mal sai de casa quando chega o frio. E eu entendo, mas é pena.

Hoje as nossas crianças só conhecem abóboras, trajes carnavalescos, e em vez do pão por Deus gritam doce ou travessura.
Gosto de ver as crianças felizes, não tenho nada contra o doce e travessura, e não quero de modo algum levá-las para o cemitério, além disso o ritual da fogueira é quase impraticável, salvo nessas pequenas comunidades. 
Mas acho que devemos, contar estas histórias, falar delas para que não caiam no esquecimento. Pois lamento que se vá perdendo a identidade cultural, e que se desprezem as nossas tradições para as substituir por outras importadas, porque acredito que o caminho para o futuro passa também por recordar e respeitar o passado.



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