28 de outubro de 2014

Entre a dor e o prazer

Ao fim da tarde a preguiça ronda-me, sinto-a a colar-se a mim. Entra de mansinho sem se dar por ela para me amolecer. Devagar e sub-repticiamente. Questiono-me. Vou? Fico?
No fundo do meu cérebro ainda permanece o eco da ultima vez, a lembrança de como foi bom. Como pode ser bom.
Sacudo a inercia, recuso-me a render à lassidão natural do final do dia e ás desculpas de ultima hora. Agarro-me ao que sei ser uma lembrança boa, e vou.

O inicio nunca é fácil, começamos devagar. Demoro a reagir aos estímulos.
Redescubro o meu corpo. Deixo que a tensão vá crescendo. Concentro-me nos pontos chave.
Quando chega o desconforto fecho os olhos, ausento-me de mim. Invoco um Mantra. Não sou eu que estou ali, é só um corpo, uma fonte de dor e de prazer. Ouço a musica e mexo-me numa cadência que me hipnotiza.
Por vezes olho-nos ao espelho. Observo a elegância dos movimentos, corrijo a postura, sinto o suor que escorre devagar, partículas salgadas que temperam e nos refrescam a pele.
Estampado no nosso rosto, vislumbro o esforço e procuro a  satisfação teimosa de quem o faz por gosto.

Abrandamos para recuperar o fôlego. Subir, descer. devagar. controlado. 
E nesta dança sincronizada mudamos o ritmo. Rápido, rápido, lento.
A mudança de posições sucede-se. 
A respiração torna-se ofegante, e o corpo que já conhece esta coreografia, entrega-se e aceita.
Saboreamos o agridoce da dor. Sentimos o cansaço. Adivinhamos a chegada do limiar. O corpo treme mas aguenta e aguarda em antecipação. 
É nos contrastes que a vida tem mais sabor. É depois do trabalho árduo que a recompensa sabe melhor.
Perto da desistência, no momento em que parece impossível repetir, muda a musica, abranda o ritmo baixa a intensidade. As luzes apagam-se e deixamos-nos embalar. É a rendição.
Os músculos entregam-se. A respiração acalma. Os olhos fecham e caímos num vórtice estonteante. Como se de uma imensa tontura se tratasse. Como se estivesse-mos em queda livre sem gravidade. Deitados, deixamos de ter peso e o calor percorre-nos de dentro para fora.
A recompensa, o alivio, o êxtase. O relaxamento final.
O corpo arrefece, a sonolência chega e não podemos ficar. Acabou. Está na hora de abrir os olhos, levantar, e correr para o duche. A aula (por hoje) acabou. 







2 comentários:

Cláudia M disse...

Não poderia encontrar melhor descrição que esta ;)

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Obrigado :D