19 de outubro de 2014

Na terra do son(h)o

Quando posso, ao fim-de-semana durmo até tarde, já o tinha dito aqui, não é segredo. Geralmente é para compensar noites muito mal dormidas, mas nem sempre. Por vezes durmo mais que o necessário, e não é por preguiça.
Desde que me lembro de ser gente (2,3 anos de idade), que entendo o acto de dormir como algo muito mais que a necessidade de descanso ou um desligar da consciência. Dormir é uma porta para um infinito de possibilidades. Refiro-me à capacidade de sonhar, algo que todos temos, mas que cada um usa de maneira diferente. Quem diz que não sonha, simplesmente não se lembra.

À noite quando programo o despertador, calculo o tempo suficiente para descansar mais um bocadinho, recuperar do deficit de sono acumulado durante a semana, e aponto para uma hora que me permita aproveitar o dia. Quando tenho planos, levanto-me mesmo que me custe (a razão fala mais alto), mas se não tiver e o sonho me agradar, desligo, viro paro o outro lado e volto a embrenhar-me na história que está a decorrer. Recuso-me a acordar.
E quando digo história, por vezes é quase isso, tem personagens, cenários e situações que fazem sentido. Parece um filme onde sou a actriz principal, com cenas de uma vida que não tenho, mas na qual parece que me enquadro na perfeição.
Fico sempre com pena de não conseguir reter na memória a recordação, tempo suficiente para a escrever. Lembro-me dos traços gerais, das sensações e dos últimos momentos, mas se não me sentar a escrever mal me levanto, tudo se desvanece.

Nestas vidas alternativas que o meu subconsciente inventa, afasto-me da realidade, distancio-me da monotonia diária que ás vezes me entorpece, vivo experiências que só são possíveis assim, no limiar entre os dois mundos.
Hoje por exemplo vivia numa quinta espectacular, com verde a perder de vista. Árvores carregadas de fruta e uma casa parcialmente de pedra com um daqueles alpendres a todo o comprimento da fachada principal, virado para um vale de cortar a respiração. O sol batia nas pedras negras de xisto, aquecendo-as e temperando o frio que já se faz sentir no Outono. Eu balançava-me numa cama de rede olhando o meu filho que brincava no chão com outra criança. Faziam estradas de terra, marcadas com pedrinhas que apanhavam com todo o cuidado. Eu, entre a atenção ás brincadeiras das crianças e o balançar cadenciado da cama de rede, mantinha uma conversa obviamente cúmplice com ... Podia continuar, mas este nem sequer foi o sonho que mais gostei hoje.

Por vezes neste dormitar pouco profundo, regresso a encruzilhadas da vida mal resolvidas, e tenho uma segunda oportunidade. Quando acordo sinto-me mais leve, com a certeza que sei fazer melhor, que aprendi alguma coisa.
É incrível como algo que nasce na minha cabeça e que nunca aconteceu, me leva a conclusões por vezes surpreendentes acerca do que sinto, em relação a pessoas e situações.
Em termos de percepção, o passado e as recordações difusas que guardamos dele, em pouco se diferenciam destes sonhos que me invadem para me mostrar caminhos novos ou ajudar a resolver opções de que arrependo, e eu aceito esta via sem preconceitos.
Porém falo de luz e de sombra, e é nesta sombra que encontro muitas vezes a minha luz, pois nos sonhos sou feita de coragem, nada fica por dizer ou fazer, e ninguém me pode fazer mal. Sou sempre a heroína de uma aventura escrita à minha medida, ou pelo menos à medida do meu alter-ego. E é bom ser eu. Ser verdadeira sem consequências. Voar sem asas. Ser criança, adolescente, adulta. Pirata, princesa, cortesã. Fotógrafa da National Geographic, escritora, piloto de caças, e tantas outras coisas, que no sonho sonhado, quem traça os limites somos sempre nós.







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