28 de novembro de 2014

Quando cheira a lareira acesa

Na minha rua ao chegar o frio, regressa com ele uma das mais preciosas recordações de infância, o cheiro da lenha a arder.  
Não acontece todos os dias. Diria que acontece quando não chove e o vento está de feição. Ou quando a minha chegada coincide com a chegada dos vizinhos que acendem lareiras. Ou a mistura destes factores, ou de outros quaisquer...
Não sei em que condições se dá a efeméride, ou porque é rara, mas quando se dá... É um momento perfeito.  
Mal o aroma me atinge, eu recebo-o sôfrega. Abro as janelas do carro, fecho os olhos, e respiro profundamente. 
Sinto-me voltar atrás no tempo. 

No Inverno esta é uma melancolia recorrente que me invade. 
A saudade da lareira, e com ela, a de todos os cheiros e sabores relacionados.
O aroma resinoso, libertado pelo pinho a arder, ou acre, quando se queima a esteva e giesta. 
E mais raro, o das cascas de laranja secas do dia anterior que derretem lentamente no braseiro. 
As torradas de centeio na brasa, acompanhadas com uma mistura de café aromático feito no pote pela minha avó. 
As castanhas assadas no assador tradicional, pendurado por cima da labareda alta, que lhes lambe a casca até ficar chamuscada, tornando-as ainda mais doces.
Os cogumelos selvagens assados, com cheiro a fumo, temperados só com sal e azeite. 
As pêras inverniças, cozinhadas lentamente no borralho até ficarem caramelizadas junto à pele, que comíamos à ceia, antes de dormir, quando o ratinho da fome voltava a espreitar.

Tudo isto e mais, me vem à memória quando aumenta o frio, e se acendem as lareiras da minha rua. Tudo isto de olhos fechados e coração aberto passa por mim, durante os segundos que fico ali, sozinha num estado indefinido, onde só o corpo permanece como veiculo de uma viagem ao passado de mim. 
Dias felizes, que eram perfeitos, sem o saber.



2 comentários:

Cláudia M disse...

Eu adorava ter lareira em casa :)

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Eu adoro lareiras a lenha. Quando entro numa casa com uma que esteja a arder, fico a rondá-la como uma traça à volta da luz. já me chamaram Gata Borralheira...