28 de dezembro de 2014

Fui ao engano

Fui ao cinema com a minha amiga M. 
Fomos, e sinceramente fui ao engano. Ela queria ver esse filme, e eu de tanta vontade que tinha de ir ao cinema, estava (quase) disposta a ver qualquer um (desde que não fosse infantil).
Boyhood foi o escolhido. Eu já tinha ouvido dizer que valia a pena ver, nem questionei. 
Lembrava-me de ter visto o cartaz, um miúdo com cara de sonhador deitado na relva, e pareceu-me bem.
Tenho um filho, por isso achei que seria uma boa ideia para entender melhor o mundo dos miúdos, que apesar de eu ter 3 irmãos mais novos, há coisas que nunca partilham connosco, e a infância já lá vai...
Resumindo, estava à espera de um filme levezinho, do estilo "o meu primeiro beijo" versão masculina.
Talvez um pouco romântico e sonhador, com os dilemas simples e próprios da idade, no fim uma qualquer mensagem inspiradora e optimista, que me fizesse vir de lá a sorrir e a pisar algodão.
Não é nada disso. Não vão ao engano. Não se sai de lá de coração leve, mas com a cabeça a fervilhar.

Não é leve, nem romântico, nem cor-de-rosa. É muito melhor. É real.

Ainda agora estou abalada com o impacto. Com tudo o que despertou em mim.
Passei as três horas tensa. À espera não sei bem do quê. A vida sucedia-se entre momentos chave e momentos banais, numa cadencia natural, que me manteve expectante, talvez a ansiar por um clímax que nunca se deu. Passei o filme todo a pensar que apesar de retratar uma realidade muito diferente da nossa, (América profunda, Texas), os sentimentos, as dúvidas, as decepções e as vitórias são as de todos nós. 
Estava convencida que ia ver o mundo pelo olhar de uma criança, mas foi muito mais que isso, para mim foi impossível isolar essa visão da dos adultos, principalmente a da mãe. Foi ela que mais me prendeu, que mais me tocou. Foram todos os seu erros e acertos que me mantiveram em suspenso. Foi a sua perseverança que eu admirei, foi a tentativa constante de proteger os filhos enredados nas suas decisões que me abalou, foram todos os erros e conquistas em nome do que julgamos melhor para os nossos filhos, que me deixaram "banzada". Foi a constatação que nem sempre se acerta, que fazemos o melhor que sabemos, e é com isso que temos que viver. 
Sim, foi muito mais através do olhar da mãe que eu senti o filme. nunca tendo perdido o do filho que nos foi guiando através da sua descoberta pessoal.

Aceito que nem todos acertam à primeira. Alguns acertam, outros não. Quando não se acerta, pode-se fingir que o resultado era o desejado, (dá muito trabalho recomeçar), ou pode-se voltar a tentar, que o caminho é feito de tentativa e erro, acertando de vez em quando. Isto aplica-se a todos os aspectos da nossa vida: pessoal, profissional, social...   
Nem tudo é simples, e raramente fácil. É normal termos medo, o medo vem com o conhecimento, a consciência. Só os tolos não têm medo. Mas ter medo e enfrentá-lo ... a isso chama-se coragem. 
Na minha opinião o mais difícil de aceitar e ultrapassar, é saber que as consequências das nossas decisões não nos atingem só a nós. O segredo por desvendar, é conjugar essa variável na equação, e conseguir resolve-la de acordo com a nossa consciência.   

Fui ao engano, mas ainda bem que fui.


Sem comentários: