3 de dezembro de 2014

O medo

Ouvi no telejornal da RTP1, que a doença mais temida pelos portugueses é o cancro. E abanei a cabeça em concordância. Falaram de estatísticas, mas nessa parte deixei de ouvir. Pensei em todas as pessoas que conheço, e foram (ou são) vitimas dessa doença. Constatei serem demasiados nomes. Deixaram de ser só números, estatística aborrecida e distante casos desconhecidos. São nomes com cara. Familiares, amigos, colegas. Demasiados. 
Por isso temos medo. Não sabemos se... Quando... Como... Porquê ...  
Pensei na vitima mais recente, a doce J. que sempre me recebeu como mais uma filha. O choque, a impotência, a raiva, a tristeza, o medo, e tudo... E tudo. 

E pensei no P. 

Passa todos os dias por mim de manhã e diz "bom dia". 
Olho para ele à procura de sinais de melhoras, e respondo ao seu bom dia sumido. Parece uma sombra do que era. Magro. Demasiado magro. Conheço-o mal, apesar de trabalhar na mesma sala que ele há vários anos. Excluindo os bons dias, trocámos meia dúzia de frases nestes anos todos. 

Num par de meses a doença mirrou-lhe o corpo mas não o espírito.Tem trabalhado sempre, entre a luta constante dos tratamentos certamente dolorosos e, imagino eu, a vontade de manter a sanidade através de uma rotina. 
Vejo no seu olhar aquela teimosia de quem quer acreditar que será passageiro. Que vai vencer a batalha, pois não é justo que a perca. E não é.
Diz quem é religioso, que num mundo organizado por Deus, a casualidade não existe. Tudo tem uma razão. Por vezes esta certeza de alguns desorienta-me. Não consigo ir tão longe na minha religiosidade. 

Sejamos religiosos ou não, queremos acreditar na justiça. Assim a vida faz mais sentido.
Em momentos desta natureza, queremos acreditar que se fizermos tudo bem, se nos sujeitar-mos a todas a penas do tratamento, mereceremos a cura. Até aceitamos que a dor seja a nossa expiação, mesmo quando não existiu pecado. 
Depois de passarmos pelo sofrimento, seja de que tipo for, a tendência natural do ser humano é procurar a culpa. Temos que a encontrar no mais intimo de nós. Somos assim. Se temos a sombra do castigo existe obrigatoriamente culpa. Não podemos é viver sem justificações. E é fácil encontrar essa culpa dentro de nós. Porque somos imperfeitos.

Quem não pode ajudar também sente a culpa. Pela impotência. Pela gargalhada que se escapou. Pelo queixume que saiu sem motivo, comparado com um problema a sério. Por se sentir bem com a vida ou com outra coisa qualquer...
Ás vezes, quando me cruzo com ele na sala do café, penso em frases de apoio, em formas que demonstrem a minha empatia. Mas nunca chega a sair nada de jeito, não sei o que dizer. No que mais importa, não posso ajudá-lo. Ele sabe disso. Está sozinho nesta luta desigual. Neste sofrer teimoso.

Torço diariamente para que tudo corra bem. Para que saia vitorioso. Procuro discretamente no seu rosto, indícios do que lhe vai na mente, procuro o momento do regresso à serenidade. Correndo o risco de parecer egoísta, vencendo ele vencemos todos. Ganhamos em esperança. Acreditamos mais um bocadinho na medicina, que o sofrimento não é em vão. Que é possível dar a volta, basta não desistir de lutar. 

Já chega de vitimas!
Maldita doença que ataca silenciosamente. Que cresce dissimulada e invade o corpo sem pedir licença ou dar sinal de chegada. 
Por isso temos medo.

2 comentários:

Cláudia M disse...

Arrepiante este texto... É uma doença cruel, que só o nome nos arrepia. Eu também não sou religiosa, mas acredito que as pessoas têm que se agarrar a algo, acreditar em algo, na religião, na medicina, no que é justo e assim se vai lutando e tendo esperança, numa batalha que nem sempre tem um final que todos queriamos...

Beijinhos

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Infelizmente, basta a palavra para nos arrepiar, porque a ela associamos sempre alguém próximo e o seu sofrimento. Só nos resta a fé (seja no que for) e a esperança da cura.
Beijinhos