1 de fevereiro de 2015

O sentido da vida

A morte faz parte da vida. Nunca questionei esta afirmação, e penso que ninguém o faz. Porque o fim, será algo que virá de noite quando formos muito velhinhos, depois de uma vida longa e cheia. Porque é assim que deve ser. É assim na minha cabeça, e provavelmente na da maioria das pessoas que conheço. Vivemos o dia a dia como se por cá andássemos para sempre. Olhamos para o futuro como se fosse nosso. Garantido. Até que apanhamos "O susto".

No meu caso, "o susto" chegou sexta feira, em forma de um telefonema, dias depois de ter feito o check-up periódico, a perguntarem se posso ir a uma consulta urgente dali a uma hora, com o medico xpto conhecido por ser o especialista dos casos graves... Digo que sim, que vou. Que mais poderia eu responder? 
E durante uma hora o mundo pára. Durante uma hora imagino os piores cenários. Durante essa mesma hora revejo todos os detalhes do check-up á procura de sinais. E fico convencida que apareceu alguma coisa na ecografia. Que afinal a médica quis ver a minha ultima ecografia mamária e mamografia porque encontrou algo. E à medida que esta ideia cresce, toma conta de mim o medo, o corpo começa a tremer, o ecrã do computador fica desfocado, vejo todo o meu mundo de pernas para o ar.
O trabalho, e as questiúnculas pendentes parecem-me insignificantes. As urgências do dia, ridículas. As filas nos correios para comprar certificados de aforro (noticia desse dia), patéticas. As dúvidas existenciais, egoístas. 
O medo toma conta de mim. Agiganta-se.
Penso no meu filho, e sinto um aperto no coração. Penso em mim e nas minhas fragilidades, tento calcular que nível de sofrimento conseguirei aguentar, começo a sentir falta de ar, e caroços, e picadas... Tudo isto em apenas uns poucos minutos. 

Valha-me santa imaginação galopante!
Respiro fundo. Telefono a uma amiga, que me ouve, que me acalma (quase...). Vou para a consulta. Mal entro no consultório aviso o médico que estou em pânico, que o melhor é dizer rapidamente do que se trata.
Ele, calmamente diz que o electrocardiograma revelou uma anomalia cardíaca.
Eu, incrédula, aliviada, de olhos esbugalhados e provavelmente de voz esganiçada deixei escapar a frase mais parva do dia : 
"só isso? pensava que era cancro! ainda me matam do coração!"
Ele sorriu e disse: "É exactamente isso que quero evitar."
Eu atrapalhada (reparo que tem uns olhos bonitos) respondi, "pensava que era grave."

Ele continuou, "Sei que toda a gente tem mais medo do cancro do que de outra doença qualquer, mas as doenças cardiovasculares matam mais que o cancro, e quando detectados os sintomas, geralmente já não há nada a fazer. Os danos de um acidente cardiovascular são irreversíveis e geralmente fatais, enquanto que a maioria dos cancros são tratáveis."
Apesar do que me disse, não me deixou mais preocupada, pois também para mim a doença oncológica é o verdadeiro terror. Ele percebeu, pelo que acrescentou, "a sua reacção não me surpreende, é assim com quase toda a gente, parece que ninguém quer levar o coração a sério...". Eu, sorri com a ironia, e arrependi-me logo de seguida, que ele não estava a brincar. 
Tentando remediar com uma explicação, falei-lhe da vida saudável que eu (achavam que) levava, do ginásio e da alimentação equilibrada, de como sou magra, tudo para o convencer que devia estar enganado.
Ele, olhou para todo o meu historial médico, fez umas quantas perguntas, e propôs uma série de exames para tirar todas as dúvidas. Concordei, certa que vai tudo correr bem.

Eu, não sei se estou (finalmente!) optimista, estúpida, ou a fugir da realidade, mas acredito que se trata de um engano, que os exames vão confirmar isso mesmo, que o meu coração está bem, que sou rija como a minha avó, e não passa tudo de um mal entendido. Quando saí de lá, a minha amiga esperava-me na recepção. Afinal, ela quis jogar pelo seguro, e caso as noticias fossem as piores, estava ali para me ajudar a aguentar o embate. Senti-me menos só.

E agora? depois deste grande susto, vou mudar alguma coisa? Não sei, mas uma coisa vos digo, não somos imortais, só temos uma vida e é demasiado breve e preciosa para ser desperdiçada com pormenores comezinhos. Vou aproveitar cada oportunidade para fazer o que gosto, vou fugir dos fretes, e das situações que me consomem. Vou abraçar o meu filho sempre que me der na gana, e enchê-lo de beijos. Vou garantir que ele sabe o quanto gosto dele. Vou ligar mais vezes à minha mãe, e arranjar tempo para quem gosto. Vou acima de tudo dar mais ouvidos ao coração (que tem andado negligenciado), pois afinal, com anomalia ou não, foi ele que me pôs de novo a pensar no sentido da vida. Da minha vida.  




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