27 de abril de 2015

O verdadeiro dragão

Voltemos ao tema dos dragões. Aqueles bichos míticos que só os cavaleiros de coração puro conseguiam enfrentar, para finalmente libertarem o reino do medo, ou a sua princesa do isolamento.
Nesta história de dragões cavaleiros e princesas, eu contenho em mim isso tudo.
A princesa isolada numa ilha, rodeada de autoestradas por todo o lado, que alimenta um dragão com o seu medo de conduzir, e que no fim da história, tem de ser o seu próprio cavaleiro, enfrentar o dragão, para ganhar o mundo. 
E hoje fui isso tudo, três personagens numa história só. Princesa, cavaleiro e dragão.

Levantei-me cedo, decidida a enfrentar a A5 sozinha pela primeira vez, com o objectivo de chegar a casa da minha amiga MartaRevi mentalmente o percurso várias vezes, pois a par do medo, existe também uma incapacidade de decorar os trajectos. O caminho que separa a minha casa da dela nem é complicado, e por isso convenci-me que conseguia. Àquela hora a estrada estava quase deserta, agradeci mentalmente a sorte, sorri ao senhor da portagem quando paguei, e lancei-me na A5. Acho que fiz todo o caminho de olhos arregalados, e quase sem respirar. Não me lembro de quase nada da viagem excepto da incredulidade que me atingiu quando estacionei. Tinha conseguido. As pernas começaram então a tremer, e foi só quando a Marta desceu para seguirmos juntas, que realizei ao que ia. Correr, outra loucura.

Voltando à condução, esta minha fobia é inexplicável, não há um trauma, não há uma limitação válida que não seja a que a mim própria imponho, que a justifique. 
Mas tenho medo, um medo paralisante de conduzir. Um pânico de não conseguir ver quem vem lá, de não conseguir travar a tempo numa emergência, de ser abalroada por tantos condutores que por aí andam, ainda mais aselhas que eu. 
Quando o trail acabou, dei por mim a pensar, não no que tinha acabado de experienciar, no que tinha conseguido fazer, mas no que me esperava. Conduzir de regresso a casa. E o nervoso miudinho começou a tomar conta de mim. Já não era de manhãzinha, a estrada teria muito mais transito, e de repente duvidei se saberia o caminho de volta...
A Marta, tão cansada e tão encharcada como eu, percebeu a minha aflição e ainda me perguntou se precisava de guia para sair dali... E eu, mais uma vez quis acreditar que conseguia, e disse que não seria necessário. Afinal alguma vez tinha que confiar em mim. E fui. Respirei fundo, tentei rever o trajecto de volta e pus-me ao caminho, que pegajosa como estava, já só ansiava por um bom banho quente.

Fiz tudo bem, até que apareceu uma placa a dizer A5, e em vez de seguir o que o meu instinto me dizia, segui a placa. Meio segundo depois soube que tinha feito asneira, soube que estava a seguir na direcção contrária. Fiquei sem ar.  O meu cérebro começou a funcionar a mil, e a ver cenários cada um pior que o outro. Comecei a respirar devagar, para me acalmar, e a olhar com atenção para todas as placas que me apareciam, não queria ir parar à autoestrada do Norte com meio depósito de gasolina. Uma a uma escolhi saídas que me eram familiares, e próximas de casa.
Parque de campismo, Sintra, Amadora...
Ansiava poder parar para acalmar os nervos e pensar numa solução, mas fui andando, sempre em frente, sabia que não podia cometer erros, numa via rápida um erro pode ser fatal. Já estava a ver-me no transito caótico da Amadora quando avisto uma saída para o Ikea, respirei de alivio e segui nessa direcção. Acho que nunca me senti tão feliz por ir ao Ikea!... 
Entrei no parque de estacionamento e só depois de parar, pude respirar de alivio. Estava segura. Recordei então ter visto uma placa antes de entrar no parque que indicava a A5. Deveria eu tentar de novo? Sair, e tentar regressar á A5, desta vez na direcção certa? 

Podia tê-lo feito, e se calhar esta história teria tido um final inspirador, mas a verdade é que já não queria saber. Estava molhada, cansada, com fome, e só queria ir para casa sem mais sobressaltos. Peguei no telefone e pedi ajuda. Meia hora mais tarde estava a seguir o carro dele, de volta para casa, contente por saber que um duche quente estava à minha espera.
Não matei o dragão, mas agora sei que lhe posso dar luta, que mesmo quando me engano no caminho, consigo manter a calma suficiente para não bloquear. Seguir em frente até que surja uma solução. 
E ter conseguido perceber isso vale ouro.



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