1 de julho de 2015

Deixa entrar a luz

Dei por mim, a olhar para as cortinas da janela do meu quarto e a aceitar que não estavam ali bem. Foi um momento de preto ou branco. Sem os cinzentos do costume. Num verdadeiro impulso fui buscar um escadote e tirei-as. 
Sentei-me na cama a olhar para o resultado, e fez sentido.

Mas porque teimei eu, em manter ali aquelas cortinas se já não eram do meu agrado? Faziam-me assim tanta falta? 
Eu achava que sim. Afinal aprendemos cedo que uma janela deve ter cortinas. Um quarto não deve estar exposto ao olhar alheio. Uma certo recato recomenda-se.
Mas porquê manter aquelas cortinas se andava saturada daquela cor havia algum tempo? 
Não fui capaz de responder a esta questão de imediato. 
Talvez por saber que mudo de ideias muitas vezes, tenho aprendido a controlar os meus impulsos.
Resultado, ao fim de algum tempo já quase não as via. Passava por elas e nem as via. 
Simplesmente estavam ali a cumprir a sua função. A evitar que olhares estranhos testemunhassem a minha intimidade. 
A evitar que demasiada luz entrasse, e fizesse estragos.

Nem consigo precisar quando cheguei à conclusão que já não me serviam. Afinal, quando as lá pus achava que eram espectaculares. Compunham todo um conjunto harmonioso, que me dava aquela sensação de segurança, de querer estar, de paz.
Mas a harmonia quebrou-se. Algo mudou em mim, e nem sei exactamente quando, nem porquê.       
Realizo, que quando andava em arrumações mais profundas pelo quarto, olhava para elas, e dizia a mim própria que um dia destes, seria o dia. E aí sim, fariam parte de toda uma mudança de cores, num plano que nunca passou disso mesmo.
O tempo seguiu o seu curso, a mudança foi sendo adiada, e elas continuaram por lá, a cumprir o seu papel silencioso de quebra luz, de tal forma que já quase não dava por elas.

Fui buscar o escadote, subi, e tirei-as de lá. Assim, como quem arranca um penso rápido, mas sem o alarido. 
Parece que nada mudou, mas tudo mudou. Acabou-se a penumbra.
A luz, essa intrometida, entra agora despudoradamente pela janela adentro iluminando todos os recantos. 
Talvez queime a cor azul do tapete que está no chão, talvez se torne demasiado incómoda. Não se pode ter tudo

Deixa entrar a luz. Deixa que queime a cor do tapete, que ilumine os cantos e afugente as sombras. 
Um dia destes, se encontrar as cortinas certas, talvez pendure umas novas. Não tenho pressa.
Até lá, que a luz seja meiga comigo.



2 comentários:

Joanico disse...

Parece a minha gata Oriana :)

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Este é o Trico. Sempre fotogénico.