27 de agosto de 2015

A amizade é um lugar estranho

Estes dias estive em Bragança.
Apesar de ter passado momentos muito bons com a minha família e alguns amigos, nem tudo correu da melhor forma. 
Desencontros, imprevistos, prioridades revistas no ultimo instante, decisões nem sempre muito conscientes. 
E se por vezes idealizamos algo, e na nossa cabeça projectamos a perfeição, no fundo sabemos que é de todo impossível atingir tal estado. Tendo isso em conta, não foi o que idealizei, mas o que foi, abriu-me caminhos novos. Direcções nunca antes pensadas. Depois de se andar em círculos durante algum tempo, encontrar uma direcção nova é muito bom, porque mesmo que não seja a mais certa para nós, mostra-nos que mais caminhos existem, basta não desistir de os procurar.

Vou começar do principio.
Tenho duas amigas que estão sempre longe e que me fazem muita falta. E para mim, o ponto alto das férias iria ser o nosso reencontro a três. Ansiei por esse momento, mais do que queria admitir. Elas foram durante muitos anos uma extensão de mim. Juntas descobrimos o mundo, e juntas acreditámos que o iríamos conquistar. 
As circunstâncias e as nossas escolhas, levaram-nos para direcções diferentes, afastando-nos geograficamente.
Vivências distintas durante mais de vinte anos, moldaram-nos, transformando-nos nas pessoas que somos hoje. Inalteradas na essência, mas completamente diferentes.
E se isso poderia ter extinguido a amizade, não o fez. Na verdade, de uma forma inexplicável, fortaleceu-a.
Temos vindo a perceber, que muitos dos desejos e dos medos de cada uma são-no das três, e que a transparência, em vez de nos deixar vulneráveis, fortalece-nos. 
Nestes últimos anos, tem sido quase impossível estarmos juntas as três em simultâneo, mas desta vez aconteceu. E apesar de ter idealizado um reencontro perfeito, não foi. Não foi aquele reencontro de filme entre amigas de longa data, a que tantas vezes assistimos no cinema. Mas vistas bem as coisas, foi melhor que isso, foi genuíno. Foi cru, e intenso. Foi revelador. 
Não somos as mesmas pessoas de há 20 anos atrás, e não faz mal, porque a confiança inabalável continua a mesma. A certeza de que podemos confiar o nosso segredo mais profundo ou a nossa loucura mais ousada sem medo, mantém-se intocada, ou melhor ainda, renovada. 
E foi neste reencontro (in)perfeito que deixei de ter medo de me decepcionar e de não corresponder ás expectativas. Na verdade, (eu já o deveria saber há mais tempo), quando uma amizade assim existe, a aceitação é completa, sem condições.
Entre gargalhadas, suspiros, e caras sérias, as entranhas ficaram à mostra. Muito foi dito e confiado.
No meio de tudo isso, fiquei imensamente comovida com algumas das ideias que surgiram. Generosas, criativas. 
Eu sei, e elas também, que por mais boa vontade que exista, há coisas que ninguém pode resolver pelos outros. Cabe a cada um assumir a responsabilidade de escolher o seu caminho. Mas poder falar de alternativas, sem tabus ou receio de mostrar as nossas fragilidades mais profundas, ajuda a ganhar outra perspectiva, e isso vale o mundo. 
Obrigado M. e M.J. por me confirmarem o que o meu coração já sabia.



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