5 de agosto de 2015

Medo, acto II

(continuação)
...
Coloco as cuecas num prato, (nem sei porquê, não faz muito sentido, mas adiante). Sente-se um cheiro estranho na cozinha. Deu asneira. Desligo o micro-ondas e o que lá se passa não é bonito de ver. Nem me ocorreu que devia ter escolhido as cuecas de algodão que levo para o ginásio. Estas, de micro-fibra com rendinhas várias, sabe-se lá do quê, neste momento, parecem uma escultura de arte moderna, perto da incineração, parecem qualquer coisa menos cuecas. 
Coloco aquela "coisa" no lixo e volto a tentar, desta vez com as cuecas de algodão, um minuto de cada vez. 
A experiência corre melhor. Secas e quentinhas, visto-as e voo para o quarto para acabar de me vestir. 
Estou super atrasada. 
Quando me vou calçar é que são elas. O tornozelo está a latejar e não cabe nos botins. Com já estou por tudo, despejo o saco da ginástica e calço os ténis. Meto os botins na mala de mão. Já não há tempo para o pequeno-almoço. Olho-me ao espelho e a imagem de volta não é muito atraente. Cabelo com aspecto duvidoso, e uns ténis laranja a sair das calças, a destoar de todo um conjunto planeado e que fazia sentido na noite anterior. Smart casual. “Bem la casual é, …agora de smart pouco tem…”
Decido manter o pensamento positivo, siga.
Agarro na mala, e desço para o carro. Chego cá abaixo e percebo que me esqueci da mala de mão. Volto a casa, agarro nela e desço de novo. Dói-me o pé. Espero que não seja nada de especial, definitivamente esta não é a definição de "começar com o pé direito". Ligo o motor e começo a sentir um friozinho no estômago. A realidade atinge-me como um raio. Vou enfrentar uma auto-estrada. Vindo do nada, o pânico de conduzir ataca. Envolve-me como uma nuvem e começo a ficar sem ar. O coração bate descompassadamente e parece que não consigo respirar. Devagar, a razão vem ao de cima. Tem que ser, temos que enfrentar os nossos medos, um de cada vez. Ainda é cedo, digo a mim própria. Deve haver pouco transito na estrada, estudei o caminho várias vezes e vai correr bem. Só tenho que manter a calma e a atenção. Se os outros  conseguem eu também consigo. 
Arranco devagar e sigo em frente. O dia está a nascer, o céu em tons pastel suave anuncia um dia de sol, que não consigo apreciar. Aproxima-se a portagem e o coração acelera de novo. De repente parece que o cérebro bloqueia e o carro já não é controlado por mim. A passagem da portagem encolhe e eu não vou caber. Aponto ao centro como se estivesse a disparar uma arma, e seguro o volante com toda a força. Sinto a tentação de fechar os olhos, mas resisto e mantenho-os bem abertos, quase esbugalhados. 
Passei.




Continua...

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