6 de agosto de 2015

Medo, ultimo acto


(continuação)

... 
Entro na autoestrada “quase” à maluca, a seguir ao carro que lá vinha. Mantenho-me na faixa da direita para recuperar do susto. Vou lendo as placas, e sinto que vou depressa demais. O pé dói e o receio que me atormenta, (como senão chegasse o pânico que ameaça tomar conta de mim), é precisar de travar e o pé não aguentar. 
O trânsito flui, mas não consigo descontrair. Sei que estou muito atrasada e a andar demasiado depressa, não posso cometer erros, aqui um erro paga-se muito caro. 
De repente, um carro à minha frente trava, eu, não sei como nem porquê, em vez de travar, ou mudar para a faixa à minha esquerda, sigo o desvio da direita. Floresta de Monsanto. Estou perdida. Não conheço nada aqui, começo a pensar em bandidos, e prostitutas, e o medo volta a atacar. Que ridículo! O tempo das prostitutas no Monsanto já lá vai, agora é só um local para desportistas e famílias, lembro-me de cada coisa... Ligo o rádio para aliviar o ambiente.
Tudo se precipita. do nada, um cão atravessa a estrada, e eu tento travar a fundo, hesito, devido à dor lancinante no pé, sei que vou acertar no cão, e dou uma guinada para a direita. Salvo!

O carro não pára. O travão (ou o pé) não funciona. E desço vertiginosamente por uma ribanceira no meio da floresta, viro furiosamente o volante de um lado para o outro, para não embater nas árvores. O coração bate desenfreadamente, a cabeça parece que vai explodir, e os braços doem com a força de segurar o volante. 
O corpo é sacudido de um lado para o outro, e a descida parece nunca mais acabar. Tudo acontece demasiado depressa, e ao mesmo tempo em câmara lenta. A escuridão da floresta  envolve-me com se fosse um fluido negro e viscoso. Acendo os máximos. Parece que estou num estreito túnel de luz. A visibilidade é péssima. Já não controlo nada. Sei que vou morrer. 
À minha frente só o vazio. Fecho os olhos e sinto que estou a voar. Sei que é o fim, e morro de medo. Penso no meu filho e grito com todas as forças que consigo, como se isso fosse a única coisa que me libertará. 
     
Acordo banhada em suor. Sento-me na cama. Respiro fundo. 
É de madrugada e ainda falta uma hora para o despertador tocar. Acendo as luzes, levanto-me devagar, ainda a tremer. Misturado com um grande alívio, sinto uma espécie de vazio. Olho através da janela para o carro estacionado lá fora. Sinto-me grata, como se me tivesse sido dada uma segunda oportunidade.
Pergunto a mim própria se hoje (só hoje), não será mais sensato ir de táxi para aeroporto...





2 comentários:

Joana Sousa disse...

Muito bom. E ainda bem que o fim foi esse - deixaste-me com medo ali para o meio!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Joana, conduzir numa autoestrada ou via rápida, é, de facto, um dos meus maiores medos, um dos que tenho que vencer definitivamente. bjs