9 de agosto de 2015

Viagem no tempo

Hoje acordei com o calor. Foi a primeira noite destas férias, que senti calor de noite. Um calor denso e pegajoso, quase tropical. Levantei-me e estava a chover. O céu plúmbeo não deixava ver o sol. 
Tomei o pequeno almoço na varanda e o cheiro do pó e da relva molhada, transportou-me para os Verões da minha infância. Recordei aqueles dias de Agosto, que começavam quentes, abafados, sem uma aragem. Dias que nos deixavam ansiosos, e irritadiços, até culminarem numa bela trovoada, com relâmpagos, trovões e uma carga de água que lavava tudo. 
Eu, apesar das reprimendas, corria para a rua, ansiosa por receber na pele, as grossas gotas de chuva quentes, que caíam do céu cada vez mais fortes e mais frescas. No fim sentia-me rejuvenescida. 
A água descia pelas caleiras, arrastando as impurezas dos telhados e fazendo um barulho  hipnotizante. Escorria pelas bermas das ruas e criava pequenos riachos levando na frente o lixo acumulado, até entupir as sarjetas.
Eu, depois daquele duche, encharcada dos pés à cabeça, voltava devagar para casa, de orelha murcha, pois não sabia se iria levar uma palmada da minha mãe por ter fugido, ou se ela já se tinha esquecido dos gritos e das ameaças. 
Não queria saber, estava certa que tinha valido a pena. 
À minha volta as árvores brilhavam, as ruas ficavam limpas e a fumegar. O cheiro que ficava no ar, era doce. Apetecia encher o peito de ar, muitas vezes. E eu fazia-o até ficar tonta.
Quanto ás outras pessoas, parecia que depois da chuva, lhes saía um peso dos ombros. Endireitavam as costas, começavam a sorrir e a conversar sobre o tempo, e tudo e nada. A vida normal regressava à aldeia.
Sentada na varanda a olhar para as grossas gotas de chuva, que não passaram disso mesmo, viajei, e dei por mim a sorrir e desejar os relâmpagos e os trovões da minha infância. Não aconteceram, mas da maneira que está o céu, não me surpreenderia se hoje a praia nos brindasse com uma bela trovoada no mar.
Se tal acontecer... Ninguém me vai ouvir reclamar...


  

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