3 de janeiro de 2016

Agradecer

Voltei aqui quase em pezinhos de lã. Como se estivesse à espera de uma reprimenda. 
A casa está silenciosa, mas é um silencio bom. Regresso aos blogues de que gosto muito, sentindo o conforto de rotinas retomadas. Olho pela janela de vez em quando, e perco-me em pensamentos dispersos sobre tudo e sobre nada. 
Está frio lá fora. O Inverno parece finalmente Inverno, o céu está carregado de nuvens cinzentas que não se fazem rogadas, e nos brindam generosamente com chuva. O meu filho brinca no quarto com os legos que recebeu no Natal, e os gatos fazem o que sabem fazer melhor, dormem. Um deles, está tão encostado ao meu braço direito que quase me impede de escrever, o outro depois de ter tentado ficar no meu colo sem sucesso, deitou-se numa almofada à beira da janela. Do meu lado esquerdo, chega-me o aroma a laranja e especiarias, de uma caneca de chá quente que fiz para acompanhar um pastel de nata com cerejas do Fundão (o meu mais recente pecado da gula). 
Frio, leitura, escrita, chá quente e um doce, combinação quase perfeita. Tivesse eu o coração leve, e estaria no céu. 
Tinha saudades destes momentos a sós com a palavra escrita. Momentos em que olho para dentro à procura das coisas boas que guardo para me iluminar, ou das más que precisam de ver o sol. Tinha saudades de partilhar pedacinhos da minha alma que tem andado tão fechada, tão cinzenta, que sei-o bem, vai demorar a ganhar leveza necessária para levantar voo. 
No entanto, apesar de eu me sentir suspensa, à minha volta a vida continua, um dia a seguir ao outro, sempre cheio. 
As pessoas à minha volta parecem felizes. Muito atarefadas, mas felizes. Não sei quanta dessa felicidade é real, mas mesmo que seja felicidade a fingir, já não tenho a leviandade de criticar. Já não me choca, que se finja ser feliz. Tenho vindo a perder a mania que sei das coisas dos outros. Ninguém sabe. 

Neste regresso verifiquei que já são poucas as pessoas que ainda passam por cá. Compreendo-as. Com tantos blogues tão bons a nascer todos os dias, um, que parece moribundo perde o interesse. 
No entanto, neste interregno, nem todos desistiram de cá vir, e uma pessoa em particular fez toda a diferença sem o saber. 
Há umas semanas, num dia em que tudo me parecia mau, num dia em que voltei ao blogue para matar saudades, encontrei um par de mensagens que reflectiam preocupação. Fiquei tão comovida pelo gesto, que o meu coração (pequenino nesse dia), cresceu um bocadinho. Da família e dos amigos, receber empatia é algo natural, mas de alguém que só conheço e só me conhece da blogosfera, é para mim algo novo e surpreendente. Não é que não a sinta também eu, por pessoas que só conheço dos seus blogues, mas foi a primeira vez que alguém a demonstrou em relação a mim, e isso podendo parecer insignificante para alguns, nesse dia, para mim, fez toda a diferença. Ainda não me tinha dado conta, que este espaço, é mais que o conjunto dos textos e fotografias, que por cá vou deixando ao sabor da minha vontade. A partilha acontece em dois sentidos. A minha e a de quem gosta de cá vir, e comenta. De quem se identifica, e de quem, mesmo quando não diz nada, fica a pensar ou a sentir algo, só porque leu um texto ou viu uma imagem que eu tive vontade cá deixar. Ao perceber isto, decidi que vou continuar por cá. Ainda não sei bem quando serei mais assídua, mas não vou abandonar este espaço comum, que me alegra, me alivia, ou centra. Conforme os sentimentos da altura. 
Por me ter feito perceber isto, e por tudo o resto, obrigada Cláudia.
Por não terem desistido e continuarem a vir cá, obrigada a todos. 


3 comentários:

Cláudia M disse...

Querida N... (apesar de já saber o teu nome, habituei-me a esta simples letra e ainda hoje quando penso em ti, é sempre da N que me lembro e depois forço-me a lembrar que é um N de Natália. De um nome que eu já conheço).

Não fiz nada de mais sabes... Foi de coração. Também para mim, a blogosfera pode ser ainda um lugar estranho ou que não conheço totalmente em relação às relações humanas. Mas penso que é realmente muito mais do que um espaço onde apenas partilhas uma imagem, ou um texto. Devagar vamos conhecendo quem está por detrás do blogue. E desde muito cedo, que gostei deste cantinho, da mãe, apaixonada pelo seu amor pequenino, das suas fases e conversas tão engraçadas e doces. Da mulher, que tal como eu, também gosta de fotografia e a partilha por aqui e claro pela escrita, que vai sempre revelando mais de nós, do que pensamos, do que somos. Mas mais ingrata, depende de como estamos e nos sentimos e por isso, nem sempre as palavras quem sair... E se isto acontece comigo, se quando não estou bem, me fecho, tenho dificuldades em escrever, em partilhar algo de bom. Calculo que isso também te aconteça. E sempre foste uma presença para mim constante, ou por aqui, com as tuas partilhas ou pelo meu blogue. E quando tudo se cala, neste caso se calou, todo o silêncio levou-me a pensar que algo poderia não estar bem. Não sabemos realmente o que se passa na vida de outro e alguém pode estar a passar por algo que nem conseguimos calcular. Gostava de acreditar (e que assim fosse realmente) que a grande maioria de nós, das pessoas que nos parecem felizes, o fossem em pleno. Mas cada vez mais, vou acreditando sim, que a felicidade é feita de momentos... momentos preciosos.

Sei o que é, uma pessoa se sentir sozinha, frágil ou desamparada e o estar longe de casa, por vezes intensifica tudo isto ainda mais. E ocorreu-me que alguém poderia não estar bem, neste caso, tu, querida N.

O blogue trouxe-me muito de bom... uma distracção por vezes, mas na grande parte das vezes, um refúgio, um cantinho nosso e das pessoas que nos acompanham e que nos habituamos a acompanhar. E no fundo, é isso que conta realmente, as pessoas.

De nada Natália, obrigada eu, pelo que me fizeste sentir hoje, num dia em que as saudades de casa (de Portugal) me apertam o peito e em que a cabeça se enche de dúvidas, sobre os caminhos que escolhemos, se enche de incertezas... Fizeste-me sorrir, fizeste-me chorar, mas lágrimas das boas, ao sentir tudo de bom, tudo o que escreveste e pensas sobre mim. Também eu fiquei comovida com o teu gesto.

Desejo sinceramente que fiques bem, que muito em breve te deixes de sentir assim, em suspenso, que sejas feliz. Se precisares de algo, nem que seja de falar um pouco, diz.

Continuarei sempre a visitar de forma assídua o Escrever Fotografar e Sonhar, porque aos lugares bons, aos que no estão no coração, regressamos sempre.

Um beijinho muito grande para ti e um obrigada também.

Escrever Fotografar Sonhar disse...

...agora fiquei sem palavras...

Também prefiro partilhar as coisas boas da vida, as más, nem sempre consigo... Compreendo as saudades de casa. Sei o que é estar longe, e apesar de ficar mais fácil com o tempo, nunca é fácil. Quanto ás escolhas que fazemos, digo-te de coração, o pior é não fazer escolhas nenhumas. Eu, a pessoa mais indecisa que conheço, tenho aprendido da pior maneira, esta lição.
Ir à luta, é geralmente, melhor que ficar parado à espera, e tu foste. As tuas pessoas compreendem, e estão a torcer por ti.
Obrigado por tudo, de coração. Bjs

Cláudia M disse...

Ohhh... ❤

Pois, eu também nem sempre consigo partilhar as coisas más, nessas alturas, por vezes nada sai, até algo de inspirador tenho dificuldades em partilhar.

Não é mesmo fácil lidar com as saudades... Sim, tens razão, mas olha que eu também sou indecisa e detesto grandes mudanças, eu sei, que não é nada bom isto, e que sair da nossa zona de conforto traz por norma, sempre algo de positivo, mas custa tanto Natália... E muitas das vezes que hesitei, foi por medo, medo do desconhecido, medo de sofrer acima de tudo. Mas depois penso, mesmo que me arrependa, pelo menos tentei, sempre é melhor do que depois ficarem os ses.. (Se eu tivesse ido... Se eu tivesse feito, Como teria sido a minha vida..., etc) mas é difícil realmente. Mas acredito que ainda vás a tempo de ir, de fazer escolhas, mesmo que não sejam fáceis, raramente o são, mas se for para sermos felizes, vale sempre a pena. Eu torço por ti, para que tudo corra bem.

De nada, querida N,
Beijinhos