9 de junho de 2016

Ciclos de vida

Sabemos desde muito cedo que a morte faz parte da vida. Sabemos cada vez mais conscientemente à medida que a maturidade nos chega, à medida que os familiares mais idosos cumprem o ciclo que nos está gravado no ADN onde, mesmo não sabendo como, está gravada uma data de validade.  Sabemos isto, mas ainda assim quando nos toca de perto é sempre um choque. Seja porque foi um acidente infeliz, ou porque a idade não fazia prever, ou mesmo porque na nossa cabeça não faz sentido.
Queremos que as nossas pessoas permaneçam sempre perto de nós. Queremos viver para sempre. Levamos a vida como se fossemos eternos, mesmo sabendo que é um perfeito disparate. E desta forma desperdiçamos o nosso bem mais precioso, o tempo. O único bem que não podemos comprar, nem trocar nem mesmo roubar.

De cada vez que a morte roça a nosso circulo pessoal, todas estas evidencias nos gritam que o tempo é curto, que não vale a pena deixar nada para amanhã se fizer sentido hoje. Ouvimos os gritos silenciosos da nossa consciência durante algum tempo, juramos que nunca mais iremos ignorar o quanto o tempo é precioso, mas a verdade é que esse mesmo tempo vai calando os gritos, que se transformam em sussurros cada vez mais dispersos, até que se desvanecem na correria dos dias.
Neste momento, ouço os gritos que me declaram a urgência de viver o hoje, entre os gritos da tristeza que é saber que o meu filho perdeu um infinito de histórias que ficaram por contar, de um avô contador de histórias. Tudo porque haveria sempre tempo depois. Tudo porque outras coisas da vida, pareciam ser mais urgentes que ouvir as histórias do avô.
É tarde, mas não demasiado tarde quando algo se aprende.
Ainda existem muitas histórias por contar, e avós que gostariam de passar mais tempo com os seus netos.     
Cabe a cada um de nós juntar ambas as partes enquanto há tempo, que esse é o bem mais precioso que se pode partilhar com alguém. 


   


5 comentários:

Cláudia M disse...

Ohh querida Natália, estou sem palavras... Foi o avô paterno do teu pequeno, ou foi o teu pai...

Um beijinho muito grande para ti e um abraço, daqueles bem apertados.

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Foi o avô mas não foi o meu pai. É igualmente triste. Obrigada pelo carinho. bjs

Cláudia M disse...

Claro que sim... O teu texto é uma grande verdade, vivemos muitas vezes como se fôssemos viver para sempre, nós e os nossos, mas na realidade, a vida é tão fugaz...


De nada, Natália. Força, beijinhos.

Maria Rita disse...

Olá, este texto podia ser escrito por mim, eu sinto o mesmo em relação aos meus filhos, eu estou a passar pelo "mesmo" que o teu marido e é tão duro....
beijinho

Escrever Fotografar Sonhar disse...

É sempre uma fase difícil, ainda mais quando é sangue do nosso sangue. Das crianças chegam as perguntas difíceis, para as quais nem sempre temos resposta. faz-se o que se pode. bjs