13 de agosto de 2016

Imaginar o medo

Regresso a casa depois das férias a Sul, debaixo de 40 graus. 
Durante a viagem passamos por dois ou três carros parados à beira da autoestrada, provavelmente avariados. Já estive nessa situação e sei o que é esperar por um reboque na autoestrada do Sul (desesperante). Algumas pessoas preferiam esperar cá fora de colete vestido. Não consigo entender porquê (o carro pode estar quente, mas pelo menos tem sombra). Desejei-lhe sorte em pensamento. 
Já perto de Palmela, por volta das três da tarde, paramos numa estação de serviço da autoestrada. O ar está irrespirável, o choque que é receber aquele bafo quente na cara depois de sair do carro, obriga-me a suster a respiração. Pior do que imaginava. Parece que alguém se esqueceu de fechar a porta do inferno.

No carro o meu pensamento não consegue deixar as ultimas notícias do radio, que pairam ainda no ar como fantasmas, em forma de fumo e cinza. Incêndios por todo o lado. O calor está insuportável e o país está literalmente a arder. Penso na dor de perder tudo. Fico a imaginar o que é ter de enfrentar algo assim. Penso na dificuldade que é para os bombeiros avançar de encontro ás chamas debaixo deste sol abrasador. Pergunto-me o que restará ainda das nossas florestas, e quantas terão mudado de cor. Já muito perto de casa percebo no céu uma mancha escura. A coluna de fumo negro parece vir da direcção da minha rua. O coração começa a ficar apertado, e fico sem respirar por alguns segundos. Não consigo dizer nada. Subimos a colina, e no alto vejo as labaredas, é aterrador. Não é na minha rua mas é muito próximo. Demasiado próximo. 
Naquele momento não imagino o medo, por uns segundos ele tomou conta de mim.  



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