22 de outubro de 2016

Cinzento

Acordo com a voz do meu filho a dizer-me ao ouvido, “quem dorme perde o dia”.
Levanto-me, abro a janela, perscruto o horizonte à procura não sei de quê. O olhar não se fixa, e o corpo não quer responder ao cérebro que envia a mensagem habitual. “mexe-te, vai tomar banho que o tempo é escasso!” O corpo, envolto numa neblina tão cinzenta como o céu lá fora, e tão pegajosa como o pensamento que se esforça por se fazer obedecer, não arranja força para se mover. O tempo dentro do tempo arrefece, desacelera, torna-se infinito num horizonte que me limita. É a humidade fria que entra pela janela que acorda o espírito adormecido, toca-me na pele como um  miasma fantasmagórico que arrepia, obrigando o corpo a reagir.
Fecho a janela, e arrasto-me a contragosto para debaixo da agua quente do duche, que me devolve a fluidez pensamento. 
Já sei que hoje a minha cor será cinzento. Por dentro e por fora. Pardo, neutro, triste. Invernoso. 
Talvez com um bocadinho de céu azul… Pode ser que haja uma aberta.



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