25 de fevereiro de 2017

Adeus Syrah

Há 10 anos, quando te fomos buscar, eras uma, entre meia dúzia de gatinhos para adoptar. Todos os outros brincavam, e pareciam extremamente divertidos com algo que só eles entendiam. Tu estavas a observar a brincadeira. Olhei para ti e soube de imediato que te queria trazer para casa. Foi amor à primeira vista, sem margem para dúvidas ou indecisões, algo raro na minha vida. 
Quando chegaste cá a casa o gato que já cá morava assustou-te um pouco, mas mesmo com medo, não o deixaste intimidar-te. Parecia que só tinhas patas, orelhas, e olhos. E que olhos. Com esses olhos curiosos querias saber tudo do mundo, Não havia portas fechadas, gavetas fechadas, caixas, sacos, e tudo, que não abrisses para investigar. Olhavas para mim, e não precisavas de mais para me derreteres, eramos uma da outra. Adoptámos-nos uma à outra. Eu era a tua pessoa e tu um bocadinho do meu espírito em forma de gata  (quem conhecer a trilogia de Philip Pullman, entende)
Durante muitos anos, só o meu colo te servia. Esperavas que a casa acalmasse, e então vinhas pedir mimo, daquela forma que só os gatos sabem fazer. Foste sempre assim, arisca. Demorava conquistar-te. Eu fui a única excepção.
Sei que foste uma gata feliz, e isso conforta-me um pouco. Sei que não vou conseguir substituir-te nunca ( na verdade não o quero fazer).

O teu companheiro de brincadeiras andou a chamar por ti, sente-te a falta, aprendeu quase tudo contigo, partilhou a vida inteira contigo. Eram o Yin e o Yang juntos, um equilíbrio que se quebrou. Não entende a tua ausência, e eu nunca lho vou conseguir explicar. Tento compensá-lo com mimo extra, com colo extra, mas sei que não chega. 
Expliquei ao nosso menino (que acabou por te conquistar, apesar dos teus ciumes), que te ias transformar em pó de estrelas. 
Ele disse que ia demorar uma eternidade. Milhões de anos. Este meu filho nunca deixa de me surpreender. Sabia que tinhas partido ainda antes de lho ter dito. Quando questionei como é que sabia, disse: 
"Pensei nisso na cama mãe, mas não tive pesadelos." 
E quis ver-te, para se despedir. Deixei. Não sei se é pedagógico, ainda assim, acho que foi o mais correcto. 
Escolhemos uma camélia, para marcar o local onde te transformarás em pó de estrelas. A natureza seguirá o seu curso, antes de estrela serás folhas e flores. 
Quando a dor passar, sei que vou pensar em ti e sorrir (agora ainda não consigo só sorrir).
Connosco ficará para sempre a lembrança da gatinha mais doce do mundo. 
Adeus Syrah.













4 comentários:

Claudia Mascote disse...

Tão linda, com um olhar tão doce e meigo. E que homenagem tão bonita é o teu texto. É bom saberes que foi uma gatinha feliz, e esses momentos vão ficar sempre contigo.

Força, um beijinho e um abraço forte para ti ❤

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Ainda não consigo olhar para as fotos sem chorar... obrigada. Bjs

Margarida Lozano disse...

ohhh :( Lamento! bem sei como te sentes! Quando os animais entram na nossa vida já fazem parte de nós, e uma perda é sempre dolorosa! Um abraço apertado

Claudia Mascote disse...

É normal, Natália... Eles são família não é... Força, beijinhos