23 de fevereiro de 2018

O resto resolve-se

Estive doente. 
Estive, durante uma semana a sentir-me tão mal que não tenho recordação de me ter sentido assim tão mal, nunca. E isto por si só pode não ter nada de novo ou interessante, só que, nos momentos piores questionei-me muito. Como é possível sermos tão frágeis? Como é possível, nos tempos que correm e com o avanço que a ciência tem, bastar um vírus qualquer para nos deixar completamente de rastos, sem vontade de sair da cama, de comer, de existir? E, outra ideia que não abandonava a minha cabeça, devido a situações que conheço de perto, como é que alguém consegue viver em dor constante, sabendo que não há solução?
Durante uma semana tive febre muito alta, dores no corpo todo, tosse, náuseas, vómitos e outros incómodos gastro-intestinais. Sem conseguir dormir devidamente, sem apetite, e porque sou muito magra e sem reservas de energia no corpo, senti-me cada vez mais frágil. Por qualquer motivo, os medicamentos não estavam a resultar, quase não baixavam a febre, não me dando o alivio necessário. Só foi uma semana, no entanto senti-me um caco.
Quando me sentia pior, ia buscar força à crença de que era temporário, que era só uma virose banal, que ia passar, ( apesar de ainda hoje não me encontrar bem). No entanto pensei muito nas pessoas com dor crónica, nas pessoas que atravessam períodos de quimioterapia, nas pessoas com doenças incuráveis, que têm a dor e o mal estar, como uma constante da sua vida. Pensei em quem, mesmo sem saúde, não tem quem cuide delas, tendo elas de cuidar de outros independentemente de como se sintam. porque infelizmente, nem todos têm uma rede de apoio social ou familiar, e ainda assim ultrapassam um dia a seguir ao outro sem se queixarem, ou pedirem reconhecimento por isso. 
Sim, o corpo doí , mas o cérebro não pára, em alturas assim, pensamos em tudo, olhamos para o nosso umbigo, mas também à nossa volta, e entre os delírios febris vemos cantos escuros que não registamos noutras circunstâncias. Regressamos ao básico, revemos o que é realmente importante. 
São muitas as vezes que não damos valor ao que temosPerdemos tempo insatisfeitos, de mal com a vida, quando temos o bem mais precioso de todos, a saúde. Podemos querer mais e melhor (é isso que nos faz evoluir), mas devemos dar graças de cada vez que acordamos a sentirmos-nos bem, de cada vez que vamos dormir e o corpo não doí, porque estamos saudáveis, e parar de lamentar pequenos nadas que tomamos como grandes problemas. 
Claro que a vida não é simples, claro que contrariedades acontecem, claro que há coisas que custam, que dão trabalho, claro que há pessoas que nos desapontam, que há tarefas inglórias, que há injustiças a vários níveis, e claro que também nós cometemos erros, e falhamos-nos, e aos outros, e temos que lidar com isso. Só que, todas estas situações são ninharias comparadas com a falta de saúde. Saber, sentir, que estamos indefesos perante um vírus, uma bactéria ou uma outra qualquer falha do nosso sistema é do mais assustador que existe (pelo menos para mim). Sentir, experimentar, essa impotência perante a vida (e a morte) é aterrorizador, e no entanto, temos que viver todos os dias com essa possibilidade. 
Resta-nos agradecer cada dia com saúde, relembrando-nos que ela é preciosa e frágil. Porque por mais banal que pareça esta frase, a verdade é que haja saúde e o resto resolve-se.  



Nota: Escrevi este post há uma semana, e já não o ia publicar, mas acontecimentos recentes fizeram-me mudar de ideias. Acontece-me muito isto, começo a escrever algo, não publico logo, porque não tive tempo de fazer revisão e depois passa o momento e já não o publico. 

6 comentários:

Fernanda disse...

Fizeste bem em publicar. Gostei muito do que escreveste. Estive ao teu lado em alguns momentos dessa semana e apesar de se perceber que não estavas bem, não consegui captar que estavas tão em baixo.

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Obrigada. Sabes, geralmente não gosto de mostrar as minhas fragilidades, acredito que dramatizar muito é aumentar o drama, então forço-me a passar uma mensagem mais optimista na tentativa de me convencer (também) a mim própria.

Claudia Mascote disse...

As tuas melhoras querida Natália, espero que já estejas melhor. A saúde é sem dúvida o bem mais precioso que temos. Um beijinho

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Obrigada Cláudia, já estou bem, mas apanhei um grande susto.
Beijinhos

Palavra-padrão disse...

Por isso é tão importante sermos gratos e disponíveis para viver a viva com muito amor e boa disposição quando temos essa oportunidade!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

É mesmo. Nisso da boa disposição as crianças ensinam-nos tanto!